Empresas usam líderes religiosos para orientar ética em IA
Gigantes da tecnologia consultam líderes religiosos para fundamentar princípios morais na IA, mas especialistas alertam para desafios dessa abordagem.
Grandes empresas do setor tecnológico têm buscado o apoio de líderes religiosos e filósofos para fundamentar princípios éticos que orientem o desenvolvimento de seus sistemas de inteligência artificial (IA). Essa tendência surge diante da necessidade crescente de dotar chatbots e outros modelos com capacidades para distinguir decisões certas e erradas.
Chris Olah, cofundador da Anthropic, destacou durante a apresentação da encíclica do Papa Leão XIV sobre inteligência artificial que perguntas éticas não são facilmente respondidas em laboratórios, mas tratadas por tradições religiosas há milênios. Assim, o cristianismo e outras crenças são consultados com o intuito de oferecer bases morais para os sistemas de IA.
No entanto, especialistas e representantes religiosos advertem que a abordagem não reconhece a complexidade intrínseca da religião, que vai além de um simples conjunto de regras. Webb Keane, antropólogo da Universidade de Michigan, explica que a religião está profundamente ligada à cultura e política e que extrair dela apenas princípios morais pode privilegiar certas tradições enquanto ignora outras, especialmente as que não se definem primordialmente como sistemas éticos.
Empresas como Anthropic têm ampliado esse diálogo com componentes religiosos variados. Em maio deste ano, a companhia relatou encontros com acadêmicos, clérigos e filósofos de mais de 15 grupos religiosos e interculturais, e a filósofa Meghan Sullivan destacou a profundidade das discussões sobre temas como a alma humana e o acesso de crianças a chatbots para alfabetização.
Outras organizações, como Meta, Google, Amazon e Microsoft, também mantêm relacionamentos institucionais com líderes religiosos e o Vaticano, buscando ampliar o intercâmbio entre religião e ética na tecnologia.
Especialistas apontam ainda que a concepção moderna de religião, muitas vezes compreendida como um sistema separado e comparável, é fruto de construções recentes, principalmente ocidentais, e não corresponde plenamente às práticas e entendimentos originários de tradições como o budismo ou hinduísmo.
Paolo Carozza, membro do Conselho de Supervisão da Meta, alerta para o risco de que a integração dessas diversas tradições religiosas na formação da IA resulte em uma visão homogênea que pode diluir ou distorcer características únicas de cada fé. Ele ressalta que, enquanto as tradições religiosas evoluem organicamente, a IA pode misturar elementos sem o mesmo processo orgânico, levando à perda de significados específicos.




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