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Dívida, Congresso, STF e polarização: o que espera o próximo presidente do Brasil

Dívida pública, disputas com o Congresso, tensões no STF e polarização impõem desafios que nem Lula nem Flávio Bolsonaro poderão resolver apenas com promessas.

 ·  Atualizado em 25/10/2026 às 09h52
Flávio Bolsonaro (PL) à esquerda e Lula (PT) a direita. Foto: Reprodução / Redes sociais
Flávio Bolsonaro (PL) à esquerda e Lula (PT) a direita. Foto: Reprodução / Redes sociais
O Brasil escolhe neste domingo (25) quem ocupará a Presidência da República a partir de 2027. O vencedor, seja Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), receberá mais do que a faixa presidencial: herdará contas pressionadas, um Congresso difícil de coordenar, conflitos entre instituições e uma sociedade dividida. Nenhum desses problemas desaparecerá com o último boletim das urnas.

A disputa eleitoral organiza expectativas em torno de dois projetos políticos. Governar, porém, exige algo que os palanques costumam oferecer em doses pequenas: dizer o que custa cada promessa, quem paga por ela e quais prioridades terão de esperar.

Economia: a conta chega primeiro


A dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalentes a 82,9% do PIB, segundo o Banco Central. Juros elevados e déficits tornam mais difícil estabilizar essa trajetória.

O projeto de Orçamento de 2027 acrescenta uma restrição: 91,7% das despesas primárias previstas são obrigatórias. Restam 8,3% para gastos discricionários, entre manutenção, investimentos e outras decisões de governo.

Lula associa crescimento a investimentos e proteção social. Flávio fala em reorganizar a máquina e conter despesas. São caminhos que exigem demonstração de resultados, não apenas declarações de intenção. Criar programas sem financiamento sustentável é um risco; anunciar cortes sem indicar quais serviços serão afetados também é.

Há debates evitados por quase todos: benefícios tributários sem avaliação convincente, políticas públicas que sobrevivem por inércia e despesas cuja eficiência ninguém consegue demonstrar. Rever gastos não precisa significar enfraquecer a rede de proteção social. Mas protegê-la exige explicar como financiá-la diante do envelhecimento populacional e das pressões sobre a Previdência.

Congresso: negociar é inevitável


O próximo presidente não escreverá leis sozinho. Na Câmara, mudanças constitucionais dependem de pelo menos 308 dos 513 deputados, em dois turnos.

Com o Congresso controlando parte significativa das decisões sobre o gasto público, o Executivo precisa formar alianças. A negociação é legítima; os acordos deixam de servir ao interesse público quando cargos e verbas se tornam mais importantes do que o conteúdo dos projetos. A questão não é acabar com a política, mas exigir que ela explique seus custos.

A Câmara estima que as emendas parlamentares possam chegar a R$ 57,5 bilhões em 2027. Elas podem levar recursos a hospitais, escolas e municípios pouco atendidos. Também exigem transparência na escolha dos beneficiários, rastreabilidade e fiscalização. Dinheiro público não deveria ser distribuído segundo o volume de influência de quem o solicita.

É conveniente exigir austeridade do governo e, ao mesmo tempo, tratar verbas próprias como intocáveis. O eleitor tem direito de saber por que uma obra foi escolhida, como será executada e que resultado concreto entregará.

STF: poder não é cheque em branco


As divergências entre Executivo, Legislativo e Supremo Tribunal Federal atravessaram o debate político. O próximo governo precisará lidar com decisões judiciais de grande repercussão e com a discussão sobre os limites da atuação de cada Poder. Isso não se resolve pela simples preferência do presidente eleito.

O STF deve aplicar a Constituição e fundamentar suas decisões; Executivo e Congresso devem respeitar o ordenamento e exercer suas competências. Discordar de uma decisão, propor mudanças legais e fiscalizar agentes públicos são práticas legítimas. Pressionar por desrespeito às regras constitucionais, não.

Também é possível cobrar do Judiciário maior previsibilidade, transparência e respostas à morosidade processual sem transformar toda crítica à Corte em confronto institucional. A Justiça precisa ser independente para cumprir sua função, e a independência não dispensa responsabilidade pública.

Integridade: a exigência não muda com o vencedor


Suspeitas e investigações que envolvam pessoas próximas de dirigentes políticos devem ser examinadas com provas, devido processo e direito de resposta. A cor partidária não determina culpa nem inocência. Tampouco o resultado da eleição deve funcionar como certificado de idoneidade para aliados ou familiares.

Quando denúncias viram apenas munição de campanha, o que costuma desaparecer do debate é justamente a pergunta mais importante: o que foi efetivamente comprovado?

Ruas: vencer não é representar apenas metade do país


A votação revelará uma escolha majoritária, mas não eliminará a discordância de quem preferir o outro candidato. A oposição continuará tendo papel democrático, e manifestações pacíficas continuarão sendo legítimas. Criticar decisões do governo não equivale a rejeitar a democracia; usar violência para impor resultados políticos, sim.

A polarização impõe uma tarefa adicional: abandonar a ideia de que toda cobrança feita pelo lado adversário deve ser descartada. O cidadão que precisa de atendimento médico, emprego e segurança não ganha nada com a transformação permanente do debate público em torcida organizada.

2027 exigirá escolhas, não slogans


Entre os desafios estão a baixa produtividade, diferenças regionais, infraestrutura insuficiente e a necessidade de preparar serviços públicos para uma população mais velha. São desafios de vários governos e exigem políticas acompanhadas por metas verificáveis.

O vencedor terá de apresentar prioridades, cronogramas e fontes de financiamento. O Congresso terá de assumir o custo das mudanças que aprovar. O Judiciário precisará garantir direitos sem dispensar explicações. E a sociedade terá de cobrar resultados também daqueles em quem votou.

O segundo turno define quem terá a oportunidade de governar. Não concede autorização para ignorar restrições econômicas nem transfere a culpa de toda dificuldade aos adversários. A eleição termina hoje; a responsabilidade pelos números, pelas instituições e pelas promessas começa no dia seguinte.

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