Análise aponta que ações que subiram até 49% após o 1º turno enfrentam desafio para manter valorização
Após forte alta impulsionada por queda nos juros, ações como Magazine Luiza, Smart Fit e MRV precisam confirmar fundamentos para sustentar ganhos.
Os mercados brasileiros registraram fortes valorizações em ações sensíveis a juros domésticos logo após o primeiro turno das eleições presidenciais, com destaque para papéis como Magazine Luiza (MGLU3), Smart Fit (SMFT3) e MRV (MRVE3). Entre os dias 2 e 13 de outubro, data que compreende o período entre o último pregão antes do primeiro turno e dez dias depois, as ações da Magazine Luiza subiram 49,28%, a Smart Fit avançou 40,95% e a MRV teve ganho de 32,86%. A principal motivação para os movimentos foi a queda nas taxas dos juros futuros, que influenciaram as taxas de desconto usadas na precificação destas empresas.
Segundo Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, o movimento no preço das ações está muito mais conectado à redução da taxa de desconto aplicada nos valuations do que a fatores específicos setoriais. Empresas que têm dependência significativa do mercado interno e apresentam uma dívida líquida que represente entre 20% e 40% do valor da firma tendem a responder mais a essa queda na taxa, pois a redução da dívida pode gerar maior valor para acionistas.
A pesquisa Quaest, divulgada em 14 de outubro, mostrou um cenário de empate técnico entre os principais candidatos à Presidência, com Flávio Bolsonaro registrando 46% das intenções de voto e Luiz Inácio Lula da Silva 44%. Para Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos, a valorização observada reflete uma reprecificação de expectativas em relação ao cenário macroeconômico, e não uma confirmação de mudança governamental. Ele destaca a importância de as empresas entregarem resultados condizentes com seus novos patamares de precificação.
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O caso do Magazine Luiza se destaca, pois o rally da ação nos últimos meses contou com fatores internos relevantes como o acordo firmado com o Mercado Livre, a revogação pela Anvisa de restrições à venda de medicamentos (ainda sujeita a regulamentação definitiva) e desafios enfrentados pela concorrência direta, como a Casas Bahia. No entanto, a valorização depois do primeiro turno ocorreu sem algum fato corporativo de peso e está alinhada à queda da curva de juros, segundo a analista Maria Carolina Luchesi da Hike Capital.
Mateus Hammes, head de investimentos da Ludo Capital, estima que cerca de dois terços dessa valorização são consequência do cenário eleitoral, da queda dos juros e da valorização do dólar, com o restante vinculado a fundamentos das companhias. No caso da Magazine Luiza, a pressão dos juros altos sobre o resultado financeiro foi significativa no segundo trimestre, consumindo 81% do Ebitda ajustado devido à antecipação de recebíveis de cartão.
Projeções ainda não ajustaram integralmente os preços das ações. O Itaú BBA elevou recomendação para compra do Magazine Luiza, com preço-alvo de R$ 16 para o fim de 2027, porém analistas como Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, apontam que revisões de preço estão concentradas em poucas casas e a média das projeções ainda permanece abaixo da cotação atual.
Riscos importantes para essas ações continuam concentrados no consumo, especialmente entre a baixa renda, que é consumidora de bens duráveis financiados a prazo. Se o cenário de menor crescimento das transferências de renda e restrição do crédito prevalecer, a demanda poderá cair antes que baixos juros possam beneficiar os resultados. Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, não acredita em ruptura na baixa renda em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, mas é cético quanto à possibilidade de cortes significativos na taxa Selic no curto prazo.
Em relação à Smart Fit, a valorização quase equivalente à do Magazine Luiza acontece mesmo com mais da metade da receita da empresa vinda do exterior. Com forte expansão, o valor da empresa está muito ligado ao longo prazo, que costuma ser beneficiado por juros menores. Apesar disso, a margem das unidades maduras da academia apresentou leve queda para 51% no segundo trimestre, e o retorno sobre a expansão será um ponto de atenção para o mercado.
A MRV representa a exceção dentro do grupo, pois já divulgou resultados operacionais positivos que dão base para parte da valorização. Em prévia do terceiro trimestre divulgada em 8 de outubro, a construtora reportou vendas líquidas recordes de R$ 3,04 bilhões, alta de 29,6% em doze meses. No entanto, a geração de caixa no Brasil no trimestre foi impactada negativamente por R$ 80 milhões devido à greve da Caixa Econômica Federal. Assim, embora os fundamentos estejam tendo resposta mais direta, os efeitos de preços ainda estão sujeitos a cautela.
Os analistas destacam que, caso Luiz Inácio Lula da Silva vença no segundo turno, as teses operacionais para os negócios se manteriam, mas os preços das ações poderiam sofrer ajustes importantes dependendo da percepção dos investidores. Chinchila observa que a Magazine Luiza precisará transformar os ganhos financeiros em lucro, a Smart Fit deve demonstrar retorno efetivo sobre sua expansão acelerada e a MRV precisa converter suas vendas robustas em geração efetiva de caixa e redução de alavancagem.
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