Afastamentos por ludopatia somam 377 e batem recorde em 2026
INSS registra 377 benefícios em 2026 por vício em apostas, mais que em todo 2025, e especialistas alertam subnotificação do problema.
A ludopatia, ou vício em apostas, fez o número de afastamentos do trabalho bater recorde em 2026, com 377 benefícios concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) até agosto, superando os 312 casos registrados em todo o ano de 2025.
Além do aumento nos casos, o custo financeiro para a Previdência Social também cresceu consideravelmente. O gasto com benefícios relacionados à ludopatia até agosto de 2026 atingiu aproximadamente R$ 1,9 milhão, valor seis vezes maior que o registrado em 2023, totalizando, desde junho de 2023, cerca de R$ 4,8 milhões em despesas.
O crescimento gradual das concessões acompanha a disseminação das apostas online, liberadas no Brasil em 2018. Nos cinco primeiros anos após a liberação, o número de afastamentos se manteve estável, com cerca de dez casos anuais. Porém, a partir de 2023 ocorreu um aumento expressivo, refletindo uma maior conscientização sobre o vício e a busca por tratamento.
O psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo, especialista em ludopatia e pesquisador do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que as apostas online impulsionam um fenômeno preocupante. "O celular mantém o jogo disponível o tempo todo, o que torna o vício ainda mais difícil de superar", aponta. Segundo ele, o vício em apostas atua no cérebro de forma similar a dependências químicas, comprometendo circuitos neurais ligados ao prazer e à compulsão.
Estudos indicam que o tempo entre a primeira aposta e a deterioração da vida financeira diminuiu drasticamente, reduzindo-se de anos para meses. Vitória Macedo, de 29 anos, exemplifica esse quadro. Mãe solo que enfrentava dificuldades financeiras, ela recorreu às apostas com a promessa de renda extra, mas perdeu mais de R$ 30 mil e teve que se afastar do trabalho para tratamento.
Especialistas alertam que os dados oficiais subestimam o problema, pois muitas pessoas com ludopatia podem ser afastadas do trabalho por outras condições médicas, dificultando o registro correto. Além disso, uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo de 2023 estimava 1,4 milhão de brasileiros com relação doentia às apostas.
Os estados com maior número de afastamentos são São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná, juntos concentrando a maioria dos casos.
Embora reguladas desde 2018, as casas de apostas passaram a cumprir regras mais rigorosas só em 2023, incluindo limites para evitar vícios. Entretanto, há investigações em andamento sobre práticas ilegais, como assédio a apostadores com ludopatia para incentivá-los a continuar jogando, contrariando as normas vigentes.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios investiga a empresa BetBoom, que ofereceu atendimento personalizado e até bebidas alcoólicas a uma apostadora diagnosticada com ludopatia, que gastou mais de R$ 300 mil. A Justiça bloqueou R$ 97 mil nas contas da empresa para garantir indenização e apura se outros apostadores sofreram assédio semelhante.
O governo federal proibiu temporariamente as apostas online por medida provisória, válida até 120 dias e sujeita à aprovação do Congresso, diante dos riscos associados ao vício e ao mercado ilegal que cresce rapidamente.
O impacto do vício em apostas vai além do INSS e afeta famílias e a saúde pública. Em 2025, o setor provocou uma redução líquida de R$ 62,5 bilhões no orçamento das famílias brasileiras, e o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta desafios para atender a demanda crescente por tratamento em saúde mental. O orçamento destinado à área de saúde mental aumentou de R$ 1,7 bilhão, em 2022, para R$ 2,9 bilhões, em 2025, com ampliação de equipes multiprofissionais nas unidades básicas de saúde.
O SUS iniciou em 2026 um serviço de teleatendimento para ludopatia, oferecendo até dez sessões de aconselhamento sigiloso por videochamada, complementando as opções de atendimento presencial nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básicas de Saúde (UBS).
Especialistas reiteram que, além da necessidade de ampliar o tratamento e conscientização, é fundamental combater o mercado ilegal de apostas para mitigar efeitos do vício.
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