Argentina de Milei enfrenta alta pobreza, inflação em queda e desemprego em crescimento
Quase três anos após a posse de Javier Milei, inflação desacelera, mas pobreza e desemprego aumentam no país vizinho.
Javier Milei assumiu a presidência da Argentina em dezembro de 2023, prometendo cortar gastos públicos, privatizar estatais e controlar a inflação que corroía o poder de compra dos argentinos há décadas. Quase três anos depois, os dados indicam uma economia com inflação desacelerada, mas marcada por desafios sociais e econômicos relevantes.
Inflação e contas públicas
Em 2023, a inflação argentina ultrapassava os 200% ao ano. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), os preços subiram 1,9% em setembro de 2026, acumulando alta de 33,4% nos últimos doze meses, uma desaceleração significativa em relação ao período anterior. A queda da inflação coincide com a valorização do peso argentino em relação ao dólar americano, bem como a redução dos juros e o corte nos gastos públicos, que resultaram em um superávit histórico nas contas públicas.
Pobreza e indigência
Apesar da melhora na inflação, o custo social do ajuste fiscal tem sido sentido amplamente. No primeiro semestre de 2024, o índice de pobreza alcançou 52,9%, auge do ajuste fiscal na gestão Milei. Em 2025, houve redução para 28,2%, porém em 2026 a pobreza voltou a crescer, chegando a pouco mais de 32% da população urbana. A indigência também aumentou, passando de 6,3% para 7,5%, o que significa que um em cada treze moradores das grandes cidades argentinas não tem renda suficiente para adquirir a cesta básica mensal de alimentos.
Mercado de trabalho e fechamento de empresas
O mercado de trabalho acompanha a complexidade da economia atual. Cerca de 45% dos trabalhadores ocupados estão na informalidade, sem carteira assinada, férias remuneradas ou contribuição para aposentadoria. O desemprego apresentou variações, partindo de 5,7% em dezembro de 2023 e alcançando cerca de 7,9% em 2026, conforme dados do Indec. A taxa permanece elevada, sustentada pelo aumento de pessoas buscando emprego e pelo crescimento da informalidade.
Além disso, dados do centro de estudos Fundar e do Centro de Economia Política Argentina apontam que 30.633 empresas fecharam desde a posse de Milei, correspondendo a cerca de 6% dos empregadores privados no país. Na indústria, 4.020 empresas cessaram as atividades, afetando mais de 97 mil empregos formais até maio de 2026. Paralelamente, houve crescimento nas importações: de eletrodomésticos, mais que o dobro, e roupas, com aumento de 86% em comparação ao primeiro semestre de 2023.
Contexto político e repercussão
A experiência argentina tem sido referenciada no debate político brasileiro, especialmente na eleição presidencial de 2026. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato, manifestou intenção de adotar medidas semelhantes às de Milei, como cortes expressivos nas contas públicas e a redução de normas infralegais, apontando a experiência argentina como inspiração para atrair investimentos e diminuir impostos. Essa aproximação ideológica tem gerado repercussões diplomáticas, com o Itamaraty convocando o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas após declarações de Milei contra autoridades brasileiras.