Escritor francês admite uso de ChatGPT e vence Prêmio Goncourt 2026
Autor francês usou inteligência artificial em três momentos da produção do livro premiado.
O escritor francês Philippe Jaenada, de 62 anos, admitiu ter utilizado o ChatGPT durante a criação do romance que lhe rendeu o Prêmio Goncourt de 2026, a mais importante distinção literária da França.
Em entrevista concedida à rádio France Inter, Jaenada explicou que a ferramenta de inteligência artificial foi empregada em três momentos distintos da elaboração do livro L’Inconnue du quai de Javel (A desconhecida do cais de Javel, em tradução livre).
Em um deles, o autor inseriu no texto uma frase originada do ChatGPT como uma espécie de brincadeira para os leitores. Ele garantiu que o júri do prêmio foi informado sobre essa passagem durante a cerimônia de premiação. Jaenada ressaltou que a segunda utilização da IA foi para ironizar respostas absurdas dadas pela ferramenta quando consultada sobre um tema técnico. A terceira ocorreu na fase de pesquisa para a construção da obra.
O romance premiado tem aproximadamente 530 páginas e reconta o caso não solucionado do assassinato de Louise Cansot, modelo que posava para artistas em Paris em 1949. No texto, Jaenada revê a trajetória da vítima e questiona a atuação da polícia e da imprensa da época.
Jaenada destacou que é inevitável lidar com o avanço da inteligência artificial, defendendo que escritores precisam aprender a utilizá-la em vez de ignorar a tecnologia. "Não acho que seja possível impedir o avanço da inteligência artificial. Não podemos fingir que ela não existe. É preciso usá-la, reconhecer sua existência e, acima de tudo, aprender a domá-la. Ela precisa ser útil", declarou.
Discussão sobre inteligência artificial na literatura
A revelação do escritor acontece em meio a um debate intenso sobre o uso da IA na produção literária. Recentemente, a Academia Goncourt retirou da lista de indicados um romance do escritor canadense-haitiano Thélyson Orélien, após suspeitas de que o texto teria sido majoritariamente produzido por ferramentas de inteligência artificial.
O caso gerou controvérsia, já que Orélien negou o uso da tecnologia para escrever o livro e classificou as acusações como calúnia, apesar de ter admitido plágio em trabalhos anteriores. A editora responsável encerrou a parceria com o autor e suspendeu novas impressões da obra.
Prêmio e repercussão
O Prêmio Goncourt, apesar de conceder simbolicamente 10 euros ao vencedor, costuma alavancar significativamente as vendas da obra escolhida. Jaenada recebeu seis votos na primeira rodada de votação, contra três do segundo colocado, Sylvain Prudhomme. Essa foi a quinta vez que o escritor alcançou a lista de finalistas.
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