Clientes exigem resultados concretos da IA em escritórios de advocacia e ameaçam mudar de fornecedor
Pesquisa da Thomson Reuters aponta que clientes corporativos cobram eficiência e segurança no uso da IA, pressionando escritórios jurídicos no Brasil e no mundo.
A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma ferramenta para acelerar tarefas dentro dos escritórios de advocacia e passou a influenciar diretamente nas decisões de contratação de clientes corporativos. Essa é uma das conclusões do relatório Future of Professionals 2026, da Thomson Reuters, divulgado recentemente.
Segundo o levantamento, 78% dos clientes entrevistados consideram o uso da IA muito importante ou essencial para melhorar a qualidade dos serviços jurídicos. Contudo, apenas 6% dos fornecedores conseguem cumprir essa expectativa evidenciando uma lacuna significativa no mercado.
Além disso, 32% dos clientes pretendem reavaliar suas relações com prestadores de serviços profissionais, como escritórios de advocacia e contabilidade, nos próximos 12 meses, com um terço desses contratos anuais envolvendo valores superiores a US$ 1 milhão sujeitos a revisão.
Pressão por eficiência e segurança
Rodrigo Hermida, vice-presidente para América Latina da Thomson Reuters na área de profissionais jurídicos, destaca que as exigências dos clientes evoluíram. Não basta mais informar o uso de IA, é preciso comprovar que essas ferramentas elevam a qualidade do trabalho, mantêm sigilo e entregam resultados verificáveis.
O relatório também aponta que 71% dos gestores jurídicos esperam mudanças nos modelos tradicionais de cobrança por hora, relacionadas aos ganhos de produtividade proporcionados pela IA. Por outro lado, 62% dos escritórios mantêm os preços inalterados, o que indica potencial conflito na adaptação ao novo cenário tecnológico.
Hermida ressaltou que a simples aquisição de tecnologias não assegura retorno financeiro automático; o valor real surge quando a IA integra-se aos processos internos do escritório e aproveita o conhecimento acumulado para tarefas complexas.
Riscos na segurança da informação
Embora 84% dos profissionais jurídicos latino-americanos utilizem ferramentas de IA semanalmente, apenas 48% têm acesso a soluções específicas para atividades profissionais. Além disso, 34% admitem usar ferramentas não aprovadas pelas suas organizações, expondo dados sensíveis de clientes e casos sem controle adequado.
Essa situação pode comprometer o sigilo profissional, além de ocasionar respostas erradas ou sem base verificável que afetem decisões jurídicas. Para 96% dos entrevistados, a proteção de dados confidenciais é indispensável nas ferramentas de IA utilizadas.
O executivo afirma que o sigilo não pode depender somente de cuidados individuais, devendo estar embutido na arquitetura das soluções e nos processos do escritório, mantendo a responsabilidade técnica com o profissional.
Contexto brasileiro e perspectivas
No Brasil, o volume de processos judiciais é expressivo, com 40,9 milhões de novos casos em 2025, conforme dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O país conta com mais de 1,5 milhão de advogados registrados na OAB, configurando um mercado competitivo em que a produtividade e diferenciação tornam-se essenciais.
Dois em cada três profissionais jurídicos entrevistados na América Latina acreditam que escritórios que não demonstrem valor com IA poderão perder clientes, e cerca de metade prevêem que isso acontecerá nos próximos dois anos.
A pressão pelo uso eficiente de IA também afeta a atração e retenção de talentos: 26% dos profissionais latino-americanos afirmam que considerariam deixar seus escritórios caso suas necessidades tecnológicas não sejam atendidas.
Nessa conjuntura, a Thomson Reuters planeja expandir sua oferta de IA no mercado jurídico brasileiro com o lançamento da nova geração do CoCounsel Legal, ferramenta que auxilia em pesquisas, análise documental e elaboração de minutas jurídicas, com integração ao Westlaw Brasil e outras bases de referência jurídicas.