Cleam Capital adota estratégia conservadora em startups e evita riscos do venture capital
Family office com R$ 5 bilhões foca em empresas maduras que geram dividendos, diferentemente do mercado de venture capital.
Enquanto o mercado de venture capital busca altos retornos com apostas em startups em rápido crescimento, a Cleam Capital, um family office com R$ 5 bilhões sob gestão, opta por uma abordagem conservadora e focada em empresas com histórico consolidado. Eduardo Lacet, CEO da Cleam Capital, afirmou em entrevista ao Startups que o principal objetivo da casa é evitar prejuízos e garantir lucro constante, ainda que moderado.
“Eu não sei conviver com prejuízo. Trabalhamos para gerar lucro todo mês, mesmo que não muito alto, desde que não haja perda de dinheiro. Esta é a regra número um”, explicou Lacet, ao justificar a aversão ao modelo tradicional de venture capital, que aceita perdas em busca de grandes ganhos.
Perfil de investimento e portfólio
A Cleam Capital atua principalmente adquirindo empresas institucionais, em especial carve-outs – unidades de negócios desinvestidas por multinacionais ou grandes grupos. Atualmente, o family office tem dez companhias no portfólio, incluindo empresas do setor de tecnologia.
Entre as investidas está a Casa Magalhães, empresa de software para frente de loja com cerca de 60 anos, comprada do Grupo Boticário em 2025. A aquisição envolveu a transferência de funcionários, clientes e sistemas, processo descrito pelo CEO como complexo, mas que permite agregar valor e reconhece a Cleam como parceira especializada neste tipo de transação.
Outro exemplo de sucesso é a Omnilink, companhia de tecnologia voltada para soluções no transporte de cargas, adquirida em 2019 por R$ 79 milhões e que atualmente está avaliada em cerca de R$ 3,2 bilhões segundo Lacet. A empresa lançou o produto “Pneu Conectado”, que monitora a frota em tempo real e está projetando faturar R$ 300 milhões com ele em 2027.
Estratégia de longo prazo e gestão financeira
O family office não impõe prazo para a saída dos investimentos, priorizando a geração contínua de dividendos e a melhora gradual dos indicadores das companhias. Segundo o executivo, nenhuma empresa foi vendida desde o início da atuação da Cleam Capital, e o ativo mais antigo está no portfólio há 15 anos.
Além das aquisições, o grupo utiliza um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) próprio para financiar as necessidades de crédito das empresas adquiridas.
Visão sobre o cenário econômico
Diferentemente do mercado de venture capital, que costuma desacelerar diante de taxas de juros elevadas, a Cleam Capital vê a atual conjuntura como um momento oportuno para aquisições. “Juros altos podem ser melhores porque criam mais oportunidades de M&A”, declarou Lacet, destacando que a taxa de retorno buscada deve superar o CDI, e que o aumento do custo de capital reduz o preço das empresas e torna os negócios mais acessíveis.
No entanto, o executivo reconhece que o juros elevado também traz desafios para a saúde financeira das empresas e dos vendedores, e que o juro real brasileiro deve apresentar queda ao longo do tempo, beneficiando os investidores que adquiriram empresas com desconto.