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Jehanne, grávida em 1472, denuncia abuso em Dijon no século 15

Jehanne, agredida por mercenários em 1472, denunciou o crime e foi apoiada pela comunidade, contrariando preconceitos sobre a Idade Média.

Martelo da Justiça.
Martelo da Justiça. — Foto: Reprodução

Em 1472, Jehanne, então grávida, sofreu uma agressão violenta por mercenários na cidade de Dijon, França. Contra a percepção comum de uma época marcada pela marginalização das vítimas, ela denunciou o ataque e recebeu apoio da comunidade local.

Naquele ano, Dijon vivia sob tensão devido às guerras entre o duque da Borgonha, Carlos, o Temerário, e o rei Luís 11 da França. Para proteger a cidade, mercenários foram posicionados, mas muitos impuseram um reinado de terror à população.

Jehanne, natural da Lorena, declarava-se casada e vestido com indumentária que indicava respeito social, embora posteriormente tenha revelado que não vivia com o marido há algum tempo e teve dois filhos com um padre.

Após ser arrastada à força e violentada em um campo da cidade, resistindo inclusive pelo estágio avançado de sua gravidez, Jehanne denunciou o crime no dia seguinte ao investigador Jaques Borestel. Ela detalhou os agressores, o que levou à prisão dos suspeitos.

Durante interrogatórios, os mercenários negaram as acusações, mas foram confessos após tortura. A princípio, o tribunal local determinou pena de morte. Entretanto, as autoridades ducais reclamaram sua jurisdição e libertaram os acusados, complicando a aplicação da justiça.

Apesar de Jehanne ter admitido alguns fatos pessoais que contrariavam a imagem inicial de mulher honesta — como sua relação com o padre —, o processo não foi interrompido. A comunidade local reconheceu a veracidade de seu relato e nenhum testemunho a desmereceu ou culpou pela agressão.

A historiadora Sara McDougall, autora do livro "Justiça para Jehanne", destaca que, diferentemente do que se imagina, não havia naquele contexto o costume de culpar ou envergonhar vítimas de violência sexual. Pelo contrário, as mulheres podiam apresentar denúncias e eram ouvidas pelas autoridades.

O caso de Jehanne revela nuances importantes da justiça medieval e do papel das mulheres nesse período turbulento da história, demonstrando que, apesar das dificuldades, havia espaço para a busca de justiça e solidariedade.

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