Indústria russa de drones em Alabuga envolve tráfico humano e violações de direitos trabalhistas
Estudo revela uso de mão de obra forçada e jornadas exaustivas na fábrica que produz milhares de drones para a guerra na Ucrânia.
Desde 2022, com o início da invasão da Ucrânia, a Rússia disparou milhares de drones contra cidades e infraestruturas ucranianas, causando mortes e feridos entre civis e militares. A produção em larga escala desses veículos aéreos não tripulados (VANTs) acontece no complexo industrial de Alabuga, no Tartaristão, a cerca de 800 km da capital Moscou.
Um estudo conjunto do George W. Bush Institute e do Center for Strategic and International Studies (CSIS) detalha o funcionamento da fábrica localizada na zona econômica especial de Alabuga. O local cresceu rapidamente, operando cerca de 17 instalações e 116 edifícios, com capacidade para fabricar mais de 5,5 mil drones por mês.
A Rússia inicialmente recebeu do Irã drones Shahed completos, que serviram de base para fabricar versões próprias, conhecidas como “Gerans”. A cadeia produtiva envolve uma força de trabalho composta por jovens russos, trabalhadores estrangeiros e norte-coreanos, muitos deles recrutados sob falsas promessas ou coerção estatal.
Força de trabalho e condições
Entre os jovens russos, destacam-se estudantes a partir de 15 anos recrutados pela faculdade politécnica do local para adquirir “experiência profissional”, submetidos a jornadas de até 12 horas, trabalho por cotas e ameaças para manter sigilo sobre suas atividades.
Trabalhadores estrangeiros, incluindo cerca de 200 pessoas de países da América do Sul — como Brasil, Colômbia, Equador e Venezuela —, chegam atraídos por ofertas em áreas como hospitalidade, mas são destinados à montagem de drones. Eles têm passaportes confiscados, custos de viagem e moradia deduzidos do salário, e circulação restrita.
O contingente mais numeroso é de até 12 mil trabalhadores norte-coreanos, enviados sob acordo estatal que retém entre 70% e 90% dos seus salários, os quais são usados para financiar o regime de Pyongyang. Esta mão de obra permanece sob forte vigilância e limitações de movimento.
Processo de recrutamento e exploração
O recrutamento acontece por meio de anúncios falsos e influenciadores que prometem salários atrativos e vagas em áreas como catering e hotelaria. Após testes e triagem via aplicativo Telegram, os candidatos passam por procedimentos que incluem autorização da Segurança Federal russa (FSB) e emissão de vistos.
Ao chegar em Alabuga, os trabalhadores são recebidos pela empresa, alojados em dormitórios restritos e submetidos a cursos obrigatórios da língua russa. As condições incluem descontar despesas do salário, multas por falhas e severas restrições à comunicação e circulação, além de dificuldades para enviar dinheiro a seus países devido às sanções bancárias.
Envolvimento internacional e violações
Além do Irã que forneceu o design original dos drones, e da Coreia do Norte que contribui com mão de obra, o estudo destaca a participação da China como fornecedora de componentes, facilitadora de pagamentos e rota de trânsito para produtos ocidentais utilizados na fabricação.
Essa rede de apoio permite a industrialização rápida da produção à sombra das sanções internacionais. A ONU alertou para a possibilidade de tráfico humano caracterizado no processo de recrutamento e exploração na fábrica de Alabuga.
A produção maciça desses drones para uso na guerra e o envolvimento de mãos de obra forçada exemplificam graves violações dos direitos humanos e trabalhistas no contexto do conflito entre Rússia e Ucrânia.