Arrecadação do imposto corporativo nos EUA cai 15% com cortes fiscais de Trump em meio a investimentos em IA
Mesmo com lucros recordes, a arrecadação corporativa nos EUA caiu após benefícios fiscais que aceleram deduções de investimentos, aponta Folha.
Washington – A arrecadação do imposto corporativo nos Estados Unidos apresentou queda significativa durante o governo do presidente Donald Trump, mesmo com os lucros das empresas atingindo níveis recordes, segundo dados recentes do Departamento do Tesouro revelados ao final do ano fiscal encerrado em 1º de outubro. O montante recolhido foi de aproximadamente US$ 381 bilhões, representando uma redução de cerca de 15%, equivalendo a um decréscimo de aproximadamente US$ 70 bilhões em relação ao ano anterior. Em comparação ao ano fiscal de 2024, último completo sob a gestão do presidente Joe Biden, a receita diminuiu mais de 25%.
A diminuição da arrecadação está associada a cortes de impostos aprovados por republicanos e sancionados por Trump no ano anterior, que possibilitam às empresas deduzirem uma parcela maior dos investimentos já no ano em que são realizados. Essa alteração permitiu que companhias, incluindo algumas das maiores do setor de tecnologia, possam deduzir integralmente custos relacionados à aquisição de equipamentos como data centers, justamente num momento em que essas empresas destinavam centenas de bilhões de dólares a projetos de inteligência artificial.
Executivos do setor tecnológico afirmam que os investimentos em inteligência artificial devem continuar crescendo, o que pode exercer pressão adicional sobre a receita tributária nos próximos anos. Especialistas como Peter Berezin, economista-chefe da BCA Research, comentam que a convergência de altos lucros e amplas deduções fiscais cria uma divergência rara, mas prevista pela análise econômica.
Além da queda na arrecadação do imposto corporativo, o déficit público norte-americano atingiu cerca de US$ 2 trilhões no último ano fiscal, impulsionado pelo aumento de gastos militares e juros da dívida federal que já ultrapassa US$ 32 trilhões, quase a totalidade da produção anual da economia dos EUA.
Pacote de cortes fiscais e seus impactos
O pacote de cortes tributários inclui uma série de mudanças que alteraram os prazos na dedução de custos com investimentos e despesas em pesquisa e desenvolvimento. Em vez de amortizar custos ao longo de vários anos, as empresas passaram a abater o valor total imediatamente, o que melhora a viabilidade econômica dos investimentos.
Embora essa alteração fiscal tenha como objetivo estimular os aportes empresariais, estudos acadêmicos apontam que o benefício já contribuiu para elevar os investimentos no passado. O intenso foco na inteligência artificial tem elevado ainda mais os aportes, conduzidos por gigantes como Microsoft, Google e Meta.
Segundo Matt Gardner, pesquisador do Institute on Taxation and Economic Policy, as empresas ampliam investimentos independentemente dos incentivos fiscais, o que levanta a questão da efetividade do benefício como estímulo adicional.
Além disso, o estímulo direcionado à inteligência artificial pode estar deslocando investimentos em outras áreas da economia, ao mesmo tempo em que contribui para a elevação dos juros e preços de insumos, impactando os custos para novos projetos.
Com base nos dados atuais, o professor Gabriel Chodorow-Reich, da Universidade de Harvard, sugere que a economia atingiu um teto de capacidade para investimentos, de modo que aumentos marginais em incentivos fiscais podem elevar preços ao invés de gerar mais investimentos totais.
Implicações futuras para o sistema tributário e economia
A redução da arrecadação corporativa é um indício dos desafios que a inteligência artificial poderá impor ao sistema tributário americano, considerando que os lucros de empresas e investidores são tributados a taxas menores que os salários dos trabalhadores, que também podem ser impactados pela automatização.
Além dos cortes fiscais, o governo Trump promoveu medidas regulatórias que enfraqueceram normas para limitar a elisão fiscal corporativa, o que pode reduzir ainda mais os impostos efetivamente recolhidos por corporações.
Analistas da JP Morgan Asset Management também criticam os incentivos fiscais recentes, afirmando que a economia americana não necessitava de estímulos adicionais, comparando-os a uma excessiva dosagem de café onde já havia estímulo suficiente.