Mensagens revelam que Daniel Vorcaro acessou inquérito sigiloso e acionou rede de espiões no caso Tanure
Ex-banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso a inquérito sigiloso sobre insider trading envolvendo Nelson Tanure e acionou contatos para obter mais informações.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso, por meio de múltiplos interlocutores, a informações confidenciais de um inquérito sigiloso que investigava suspeitas de “insider trading” relacionadas ao Banco Master e ao empresário Nelson Tanure, conforme mensagens obtidas em seu celular.
Em 15 de fevereiro de 2024, Vorcaro recebeu de um advogado uma imagem indicando a existência de um inquérito policial instaurado para apurar supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, mencionando também o nome de Vorcaro. Na sequência, ele enviou essa informação a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, solicitando uma análise urgente.
Sicário respondeu afirmando estar em contato com sua equipe e que o caso receberia atenção especial. Investigação em curso no Supremo Tribunal Federal indica que Sicário integrou uma rede clandestina com policiais federais, que tentou acessar o conteúdo completo do inquérito. A referida operação policial, chamada Compliance Zero, investiga as atividades do Banco Master.
Também no mesmo dia, o advogado Fábio Medina Osório, ex-advogado-geral da União, enviou a Vorcaro os autos do inquérito e afirmou ter percebido “um assunto preocupante”. Ele sugeriu que Vorcaro se apresentasse como responsável por seu programa de compliance para cooperar com as investigações e evitar medidas cautelares, como busca e apreensão.
Osório declarou ainda que quando há cooperação, as medidas cautelares tendem a ser descartadas, e ofereceu auxílio na elaboração de um checklist de documentos a serem apresentados ao Ministério Público Federal. Vorcaro, contudo, preferiu discutir a proposta por videoconferência e pediu que Osório não fizesse contato direto naquele momento.
Por meio de nota, Fábio Medina Osório afirmou que recebeu o inquérito de um jornalista e que sua proposta objetivava a cooperação com o MPF, a qual não foi aceita por Vorcaro. Ele declarou também desconhecer a participação de Sicário, tendo tomado conhecimento de suas ações somente pela mídia.
O inquérito avançou em relação a Nelson Tanure, transformado em réu em janeiro de 2026. Ele é acusado de usar informação privilegiada para obter vantagem financeira na compra de ações da Gafisa, empresa da qual é acionista de referência. A defesa de Tanure nega irregularidades, afirmando que a operação foi amplamente discutida e aprovada pelos acionistas e que autoridades competentes não encontraram indícios de crime.
O Banco Master, embora não denunciado na investigação da Gafisa, foi apontado como suporte financeiro e operacional de Tanure na denúncia. A esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, atua como representante do banco na ação, que teve origem numa denúncia feita pelo gestor Vladimir Timmerman em 2022.
Em março de 2026, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, suicidou-se na carceragem da Polícia Federal em Minas Gerais, onde estava detido.
Esses fatos evidenciam um complexo episódio envolvendo a atuação de Daniel Vorcaro em tentativa de antecipar-se às investigações, mediante acesso clandestino a informações sigilosas e acionamento de uma rede de espionagem ligada à Polícia Federal e Ministério Público Federal.