Juros, risco fiscal e capital estrangeiro influenciam desempenho da Bolsa em 2026
Maiores altas e quedas recentes na Bolsa refletem perspectiva de juros, cenário fiscal e entrada de capital estrangeiro.
As recentes movimentações na Bolsa de Valores brasileira em 2026 têm sido marcadas pela forte influência das expectativas em torno das taxas de juros, do risco fiscal e da entrada de capital estrangeiro. Empresas ligadas ao consumo e às pequenas companhias de capital aberto, conhecidas como small caps, mostram grande sensibilidade a essas variáveis.
Logo após o primeiro turno das eleições, as ações do Magazine Luiza (MGLU3) tiveram alta de 24,18% no primeiro pregão de 5 de outubro, mas sofreram quedas subsequentes de 7,04% e 4,49% nos dias 13 e 14, refletindo a volatilidade causada pela recuperação das taxas de juros futuros. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028, por exemplo, subiu de 12,696% para 12,735% no dia 14, enquanto o DI para janeiro de 2031 avançou de 12,473% para 12,540% na mesma sessão.
O economista Rafael Perretti, da Clear Investimentos, destaca que a expectativa de cortes na taxa Selic contribuiu para a valorização recente, especialmente das small caps, porém alerta que essa situação pode se inverter caso as projeções para juros e contas públicas se deteriorem.
Como os juros futuros impactam as ações
Os contratos de DI na B3 refletem as projeções de juros futuros e incorporam prêmios de risco relacionados à inflação e fiscalidade. A diminuição dessas taxas costuma favorecer empresas que dependem de crédito e consumo, pois reduz o custo do financiamento e aumenta o valor presente dos fluxos de caixa futuros. No entanto, o aumento dos juros tem o efeito oposto, pressionando as avaliações no mercado.
Essa influência é mais pronunciada em companhias cíclicas, como varejistas e construtoras, e a reação dos preços das ações também depende do endividamento e das perspectivas específicas de cada empresa.
Mudanças nas projeções da Selic e seus efeitos
O Boletim Focus registrou uma revisão nas expectativas para a taxa Selic, de 13,75% para 13,25% ao ano até o final de 2026. A taxa básica do Banco Central atualmente está em 13,75%, o que indica um potencial corte acumulado de 0,50 ponto percentual. Embora isso sugira condições financeiras mais amenas, a inflação deve manter pressão, com o IPCA projetado para 5,22% em 2026.
Small caps apresentam potencial e volatilidade
Pequenas empresas negociadas na Bolsa têm mostrado valorização superior em relação ao índice Ibovespa. Na semana que seguiu ao primeiro turno das eleições, o Índice Small Caps subiu 20,14%, com destaque para Movida (MOVI3), Simpar (SIMH3) e JSL (JSLG3). Contudo, essas ações também sofreram correção recente, refletindo o impacto da alta dos juros e de realização de lucros.
Rafael Perretti pontua que esses papéis possuem maior volatilidade e são muito sensíveis às alterações das expectativas econômicas, recomendando cautela aos investidores.
Sensibilidade do Magazine Luiza às condições econômicas
O caso do Magazine Luiza ilustra como variações nas taxas de juros podem provocar oscilações significativas no preço das ações. Embora tenha acumulado valorização de 48,76% em 2025, chegou a ter queda de 67% em 2026. A recente alta foi impulsionada pela perspectiva de cortes nos juros, mas as recentes quedas indicam o impacto do reajuste nas expectativas financeiras.
Fluxo de capital estrangeiro
Dados da B3 mostram que investidores estrangeiros aportaram R$ 13,15 bilhões na Bolsa entre 5 e 9 de outubro, com R$ 10 bilhões ingressados somente no dia 5. Perretti avalia que esse volume reforça o apelo dos ativos brasileiros, dada a expectativa de juros menores e avaliação descontada em comparação a mercados externos.
Contudo, observa que parte dos investimentos pode ser trade de curto prazo, o que gera incerteza sobre a permanência desse capital no mercado.
Risco fiscal ainda é desafio
O economista ressalta que o risco fiscal permanece como um dos principais fatores que podem modificar o cenário atual. Uma piora nas contas públicas pode elevar juros futuros, reduzir espaço para cortes da Selic e afastar investidores, especialmente estrangeiros, pressionando ações mais vulneráveis.
Portanto, mesmo com o ambiente atual favorável, a continuidade da recuperação dependerá da evolução das expectativas para juros, capital estrangeiro e confiança fiscal.