Terapia CAR-T oferece esperança para linfoma não Hodgkin, mas custo de até R$ 4 milhões limita acesso no Brasil
Tratamento que usa sistema imunológico do próprio paciente mostra alta eficácia contra linfoma não Hodgkin resistente, mas preço e infraestrutura dificultam uso amplo.
O linfoma não Hodgkin é um grupo variado de tumores do sistema linfático com diferentes graus de agressividade. Embora a quimioterapia seja eficaz inicialmente para muitos pacientes, seu retorno após o tratamento representa um desafio médico significativo, pois o câncer tende a apresentar resistência às opções convencionais.
Uma abordagem inovadora no combate a esses casos resistentes é a terapia CAR-T, que utiliza as próprias células de defesa do paciente, os linfócitos T, modificadas geneticamente para identificar e destruir as células tumorais. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou essa terapia para alguns tipos de câncer do sangue, incluindo subtipos de linfoma.
Como funciona a terapia CAR-T
O processo inicia-se com a coleta dos linfócitos T do paciente. Essas células são levadas a laboratórios, onde são reprogramadas para reconhecer especificamente as células do linfoma. Posteriormente, o organismo recebe essa nova versão das células, agora habilitadas para combater o câncer de maneira direcionada.
Essa terapia tem demonstrado eficácia significativa. Um estudo realizado no Hemocentro de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), publicado em revista científica, mostrou que 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin tiveram uma redução marcante ou até mesmo o desaparecimento do tumor após o tratamento.
Desafios de custo e acesso
Apesar do potencial, o tratamento comercial da terapia CAR-T no Brasil custa entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por paciente, valor que limita o acesso da maior parte da população. Além dos custos, existem poucos centros habilitados para realizar a terapia, e muitas vezes as células precisam ser enviadas para laboratórios externos, o que aumenta o tempo para a aplicação do procedimento.
Essa demora pode ser fatal, já que pacientes nessa fase da doença podem apresentar rápida piora clínica. Atualmente, muitos casos resolvem o acesso à terapia por meio da Justiça, o que acentua a desigualdade e favorece quem tem melhores condições para recorrer ao sistema judicial.
Avanços em produção nacional e perspectivas para o SUS
Pesquisadores brasileiros trabalham no desenvolvimento da terapia CAR-T produzida integralmente no país, iniciativa que pode reduzir custos e depender menos de fornecedores internacionais. Estudos preliminares realizados pela USP e Instituto Butantan indicam resultados promissores.
Além disso, o hospital Einstein Hospital Israelita demonstrou a eficácia da terapia desenvolvida internamente, com 81% dos pacientes respondendo positivamente e 72% alcançando remissão completa.
Para que a terapia CAR-T se torne acessível no Sistema Único de Saúde (SUS), são necessários avanços regulatórios, incluindo o registro dos produtos na Anvisa e a avaliação de incorporação tecnológica pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Também se torna importante a definição de modelos de financiamento e a ampliação da infraestrutura hospitalar e da capacitação de equipes em todo o país.
Considerações finais
A terapia CAR-T representa uma esperança para pacientes com linfoma não Hodgkin que não respondem mais aos tratamentos convencionais, oferecendo possibilidade real de remissão. Contudo, o alto custo e a infraestrutura restrita são obstáculos que precisam ser superados para ampliar o acesso e promover equidade no tratamento do câncer no Brasil.