França amplia cobertura vacinal apostando na organização e obrigatoriedade
Desde 2018, França reforçou leis e mudou sistema para elevar imunização, superando alta hesitação vacinal histórica.
Em 2018, a França implementou mudanças significativas na legislação e organização do sistema de vacinação que resultaram em um aumento expressivo da cobertura vacinal no país, segundo pesquisadores e autoridades de saúde pública. O país, que historicamente registrava uma das maiores taxas de hesitação vacinal do mundo, conseguiu elevar as taxas de imunização após a ampliação da obrigatoriedade de vacinas para crianças de três para onze imunizantes.
A lei tornou obrigatórias vacinas contra doenças como coqueluche, hepatite B, sarampo, meningite, além das já obrigatórias contra difteria, tétano e poliomielite. Também passou a ser exigida a comprovação atualizada da vacinação para a matrícula e permanência em escolas e creches, o que envolveu profissionais de educação no acompanhamento desse processo.
Resultados após as mudanças
A cobertura vacinal para várias imunizações alcançou ou ultrapassou as metas recomendadas para gerar imunidade de rebanho. Por exemplo, a vacinação contra meningococo C subiu de 35% do público-alvo em 2017 para cerca de 89% em 2023. Para a primeira dose da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), a cobertura voltou a superar 95% do público-alvo, embora a segunda dose ainda exija atenção.
Especialistas da Santé Publique France indicam que ocorreu também um aumento da confiança da população em vacinas entre 2019 e 2023, que não foi interrompido durante a pandemia de covid-19, mesmo considerando casos prévio de desconfiança, como o escândalo da vacina contra a gripe H1N1, em 2009.
O papel do sistema organizado e da obrigatoriedade
Pesquisadores avaliando a experiência francesa destacam que o sucesso não foi mero resultado da imposição da obrigatoriedade ou pelo temor de punições, mas pela melhor definição de responsabilidades: quem verifica, cobra e acompanha a vacinação das crianças, lembrando pais e responsáveis dos prazos e conduzindo o processo.
Além disso, o processo de vacinação envolve médicos que recebem os pacientes para aplicação individual das doses, diferentemente de sistemas baseados apenas em postos de saúde, o que ajuda a construir uma relação de confiança.
Aprendizados para o Brasil
No Brasil, a cobertura vacinal experimentou declínios notáveis a partir de 2015, agravados durante a pandemia da covid-19, com problemas estruturais, desorganização do programa de imunizações e desafios políticos e sociais, incluindo desinformação.
Especialistas destacam que, para consolidar avanços recentes na vacinação, o Brasil pode se inspirar no modelo francês, que alia legislação clara, organização definida das responsabilidades e participação ativa de instituições educacionais para facilitar o acesso e aumentar a confiança da população. Além disso, a ciência comportamental ressalta que tornar o processo mais cômodo e transparente é decisivo na decisão das pessoas vacinarem-se.
Portanto, estratégias baseadas exclusivamente no combate à desinformação são insuficientes; é essencial associá-las a medidas concretas de organização, acesso facilitado e monitoramento eficaz para ampliar e manter altas taxas de imunização.