Relatório aponta tortura e ameaças na operação que matou 122 no Rio
Análise de vídeos da Operação Contenção aponta agressões, ameaças e obstrução nas gravações feitas por PMs no Complexo do Alemão e Penha.
Um relatório conjunto da Defensoria Pública do Rio de Janeiro e do Projeto Mirante apontou evidências de tortura, agressões e ameaças de morte praticadas por policiais militares durante a Operação Contenção, realizada em outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, região da zona norte do Rio de Janeiro. A ação resultou em 122 mortes, número que a tornou a mais letal da história do estado.
A análise se baseou em mais de 10 mil arquivos de vídeos e áudios obtidos por câmeras corporais portáteis (COPs) utilizadas por policiais militares que participaram da operação. Apesar da vasta quantidade de imagens, o relatório destaca que nenhuma gravação mostrou as circunstâncias exatas das mortes, dificultando a reconstrução dos fatos e a responsabilização individual dos envolvidos.
Indícios graves de violência e ameaças
O documento detalha vários episódios que evidenciam tratamentos cruéis e atos ilegais. Entre eles, aparece o caso de um homem detido no Complexo da Penha por policiais do Batalhão de Choque. Ele foi imobilizado com o pé de um agente sobre a cabeça e sofreu agressões físicas, incluindo o uso de um pano ensanguentado colocado sobre seu rosto, enquanto policiais ameaçavam matá-lo caso não revelasse a localização de um fuzil, arma que, segundo o relatório, não foi registrada no momento da suposta apreensão.
Além de crimes contra suspeitos, moradores e trabalhadores locais também foram vítimas de violência policial. O relatório cita mototaxistas agredidos com tapas, chutes e até sufocamentos; o uso de gás lacrimogêneo em mulheres e crianças dentro de um supermercado durante um suposto saque; e o emprego de armas de eletrochoque contra mulheres que deixavam um ônibus, inclusive após rendição.
Problemas com as gravações e transparência
A investigação apontou ainda manipulações intencionais nas gravações. Algumas câmeras foram removidas, viradas para paredes ou tetos, ou tiveram imagens obstruídas por policiais, indicando tentativa de ocultar eventos potencialmente comprometedores. Observou-se também que muitas câmeras não estavam em uso: dos 1.802 policiais militares envolvidos na operação, somente 595 portavam equipamentos. Além disso, não foram fornecidas gravações de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), da Polícia Civil, mesmo com a obrigatoriedade do uso.
A Polícia Federal realizou perícia nas imagens da Polícia Civil e devolveu os vídeos da PM solicitando que fossem indicados trechos específicos para análise, o que tem atrasado a conclusão integral dos exames. Em outubro de 2026, 118 laudos foram encaminhados ao Supremo Tribunal Federal, mas ainda não trouxeram conclusões definitivas sobre as mortes.
Acompanhamento e encaminhamentos oficiais
O material do relatório foi enviado às autoridades responsáveis, incluindo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, corregedorias das polícias e ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Investigadores buscam esclarecer a dinâmica da ação para identificar possíveis responsabilidades. O caso também é acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635, que trata do uso da força policial no Rio de Janeiro.
O Ministério Público Federal avalia, por sua vez, a utilização dos recursos públicos empregados na megaoperação e se ações para redução da letalidade foram observadas. Até o momento, a Polícia Militar e o governo do estado do Rio não se manifestaram sobre as questões relacionadas à disponibilização das imagens.
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