Defensoria denuncia agressões na megaoperação do Alemão
Defensoria do Rio revela agressões e irregularidades em operação policial com 122 mortes há 1 ano.
A Defensoria Pública do Rio de Janeiro divulgou um relatório sobre a Megaoperação Contenção, realizada há um ano nos Complexos da Penha e do Alemão. O documento aponta diversos episódios de violência policial contra moradores e trabalhadores, além de irregularidades no registro audiovisual da ação, que resultou em 122 mortes.

Imagens analisadas mostram um mototaxista sendo sufocado, mulheres atingidas por choque elétrico e gás lacrimogêneo lançado dentro de supermercado, onde funcionários passaram mal. O relatório foi elaborado pela 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos em parceria com o Projeto Mirante, que investiga casos de violência policial.

Agressões e ameaças filmadas por policiais
As câmeras corporais (bodycams) de quatro agentes do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão registraram agressões contra mototaxistas, incluindo tapas, chutes e sufocamento com peça de roupa. Em outro episódio, mulheres foram alvejadas por armas de eletrochoque após descerem de um ônibus, sendo que uma delas recebeu choque mesmo já dominada e após pedir calma.
Um idoso que filmava policiais agredindo mototaxistas foi coagido, conforme mostra o relatório. Policiais justificavam as agressões alegando que as vítimas ajudavam o tráfico a bloquear vias, embora algumas pessoas fossem liberadas e sem evidências em seus celulares que as ligassem ao crime.
Uso de instrumentos violentos e ameaças de morte
O relatório descreve que um homem detido no Complexo da Penha foi ameaçado por policiais que disseram: “Vamos matar essa p*rra!”. O detido apareceu imobilizado com um pano ensanguentado sobre o rosto e sofreu agressões no rosto e golpes com pedaço de madeira durante a ação. Após aproximadamente 17 minutos sem gravações, o objeto identificado como arma só foi mostrado posteriormente.
Falta de registros e obstrução das câmeras
Dos mais de 10 mil arquivos audiovisuais de 529 policiais analisados, nenhum registrou as mortes ocorridas na megaoperação. Relatório aponta que câmeras foram desligadas, obstruídas com as mãos ou viradas para paredes. Dois equipamentos estavam registrados no mesmo RG e gravavam simultaneamente em lugares diferentes, o que indica manipulação dos documentos.
A Polícia Federal informou que o elevado volume de 4,5 mil horas de gravação dificulta a análise e pediu que a Polícia Militar indiciasse os trechos relevantes. Porém, a corporação não enviou o material no formato exigido nem indicou os momentos para perícia, dificultando o esclarecimento dos fatos.
Uso de munição e gravações limitadas ao Bope e Core
A maior parte dos disparos, cerca de 11.995 munições, foi efetuada pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope). Entre os policiais que mais atiraram, poucos usaram câmeras corporais e as gravações disponibilizadas terminaram antes da chegada nos complexos.
Na Polícia Civil, não houve registros das operações da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), apesar da obrigatoriedade do uso dos equipamentos. Foi entregue apenas parte das gravações.
Consequências e investigações em andamento
O relatório foi enviado ao Ministério Público do Rio de Janeiro, às corregedorias das polícias Civil e Militar, à Secretaria de Segurança Pública e ao gabinete do ministro da Justiça. O caso também tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) no contexto da ADPF das Favelas, que monitora a atuação policial no estado.
Um ano após a megaoperação, familiares de vítimas têm sido ouvidos e investigações sobre as circunstâncias das mortes continuam, assim como análises sobre a aplicação dos recursos financeiros para segurança pública.
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