Próximo presidente do Brasil enfrentará desafios geopolíticos complexos envolvendo EUA, China e América do Sul
Especialistas apontam que o cenário internacional de 2027 exigirá estratégias distintas para Lula ou Flávio Bolsonaro diante de relações com EUA, China e vizinhos sul-americanos.
À medida que se aproximam as eleições presidenciais brasileiras, especialistas em relações internacionais destacam que o próximo mandato presidencial será marcado por um cenário global significativamente mais complexo do que o atual. As eleições legislativas dos Estados Unidos, em novembro de 2026, as eleições presidenciais na França e na Argentina, além de mudanças no Parlamento espanhol, indicarão um ambiente geopolítico permeado por instabilidade e múltiplos desafios para o Brasil.
De acordo com o economista Otaviano Canuto, vinculado à George Washington University e com histórico no Banco Interamericano de Desenvolvimento e no Banco Mundial, o alinhamento ideológico tradicional entre candidatos e parceiros internacionais poderá não garantir a ausência de tensões. Ou seja, alianças políticas podem coexistir com conflitos diplomáticos e econômicos.
Relação conflituosa com os Estados Unidos
A relação com os Estados Unidos será um fator determinante durante o próximo governo brasileiro. Caso Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito, ele enfrentará uma política externa dos EUA mais agressiva, especialmente sob a administração do presidente Donald Trump, que busca restringir investimentos chineses no Brasil e assegurar acesso a recursos minerais estratégicos.
Na esfera regional, Lula também poderá perder o apoio do presidente francês Emmanuel Macron, que deixará o cargo em maio de 2027. Mesmo assim, manterá relações com potências emergentes, como Índia, México e a Rússia, apesar dos conflitos internacionais envolvendo estes países.
Se o vencedor for Flávio Bolsonaro, sua proximidade ideológica com o governo Trump promete uma relação alinhada com os Estados Unidos, porém não sem desafios. Ele terá que enfrentar a expectativa americana por maior integração da agenda regional e doméstica, além da pressão para que o Brasil limite sua relação com a China, principalmente no que diz respeito à exploração de minerais raros e terras estratégicas.
Desafios do alinhamento ideológico e pragmatismo econômico
O diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Feliciano de Sá Guimarães, destaca que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro precisarão convencer os EUA de que o Brasil não representa uma ameaça, um processo que será crucial para evitar medidas punitivas econômicas e políticas. A relação com Washington mantém tensões antigas que ultrapassam governos específicos, estendendo-se à percepção dos EUA sobre a soberania e independência brasileira.
Especialistas apontam que, apesar da pressão, é improvável que qualquer governo consiga reduzir a importância da China como principal parceiro comercial brasileiro. A China permanece responsável por quase 29% das exportações brasileiras e foi o maior investidor estrangeiro no país em 2025, reforçando a necessidade de um posicionamento pragmático na diplomacia econômica.
Equilíbrio delicado entre China e Estados Unidos
O agravamento da competição entre China e Estados Unidos, especialmente em setores como tecnologia, comércio e inteligência artificial, coloca o Brasil em uma posição delicada. Segundo Canuto e outros especialistas, o Brasil terá que navegar entre essas potências sem ser forçado a escolher lados, desenvolvendo uma estratégia trilateral que permita ao país preservar sua autonomia e maximizar seus interesses.
Panorama regional de fragmentação política
Na América do Sul, o próximo presidente brasileiro encontrará um cenário político fragmentado, com sete dos doze países da região sob governos de direita e cinco sob esquerda, paralisando iniciativas de integração como o Mercosul. Além disso, o governo brasileiro precisará redefinir sua agenda para lidar com vizinhos cujos alinhamentos ideológicos e prioridades regionais divergem, criando um desafio extra na política externa.
Em suma, o futuro presidente do Brasil terá que lidar com uma conjuntura internacional complexa, marcada por uma relação delicada com os Estados Unidos, a necessidade de equilíbrio na competição da China com os EUA e uma América do Sul dividida politicamente. As decisões sobre exploração de recursos estratégicos, posicionamentos multilaterais e articulações regionais serão centrais para o posicionamento do país no cenário global nos próximos anos.