Como os Houthis financiam sua máquina de guerra no Iêmen
Milícia xiita dos Houthis sustenta sua guerra por meio de impostos, monopólios, contrabando e controle econômico local, revela estudo do Mokha Center.
Desde a ascensão dos Houthis, uma milícia armada proveniente do islamismo xiita no Iêmen, o grupo conseguiu desenvolver uma complexa e poderosa rede econômica para sustentar sua máquina de guerra, segundo pesquisa do Mokha Center for Strategic Studies.
A análise aponta que após o golpe realizado em setembro de 2014, quando os Houthis tomaram a capital Sanaa em aliança com o ex-presidente Ali Abdullah Saleh, houve um reposicionamento da economia local por meio do controle rigoroso do comércio, monopolização de setores essenciais e imposição de impostos, taxas e contribuições obrigatórias a empresas e comerciantes sob sua área de influência.
Contexto econômico pré-guerra e impactos do conflito
Antes de 2014, a economia iemenita dependia fortemente do petróleo e gás, atividades que representavam até 30% do PIB e mais de 90% das exportações. Entretanto, essa economia já apresentava fragilidades estruturais, como baixa diversificação, alta pobreza e desemprego e dependência das importações.
A eclosão da guerra civil em 2015, pós-golpe Houthi, intensificou essa fragilidade. O país sofreu corte significativo na produção e exportação de petróleo, perda de receitas públicas e fragmentação das instituições, incluindo divisão do Banco Central em 2016, com duas autoridades monetárias rivais operando separadamente.
Estratégias de arrecadação e controle administrativo
Diante do vácuo financeiro e institucional, os Houthis estabeleceram mecanismos alternativos para garantir receitas estáveis e contínuas. Entre eles, destaca-se a cobrança sistemática de impostos, taxas alfandegárias, contribuições religiosas (zakat) e outras cargas financeiras que recaem particularmente sobre o setor privado e comerciantes, pressionando o mercado e concentrando privilégios econômicos em aliados do grupo.
Uma análise de quase 68 mil registros de licenças comerciais entre 2014 e 2025 revelou expansão sobretudo em setores altamente lucrativos, como comércio geral, importações, transporte, câmbio, energia e farmacêutico, todos operando majoritariamente sob controle ou influência dos Houthis.
Monopólios e concentração econômica
O Mokha Center indica que o grupo consolidou seu domínio em áreas chave da economia, criando monopólios no comércio de combustíveis, transporte marítimo e atividades de câmbio. Empresas vinculadas diretamente ou por intermediação a líderes Houthis receberam favores e contratos que ampliaram sua presença em setores lucrativos, ao passo que comerciantes independentes enfrentam graves restrições e custos elevados.
O controle sobre o mercado de combustíveis especialmente se destaca, gerando receitas diárias e significativas usadas para financiar operações militares, de segurança e manter a infraestrutura da economia de guerra.
Setor cambial e logística para fins militares
Na movimentação financeira, os Houthis expandiram sua influência no setor cambial, aproveitando a crise bancária local e desarticulação do sistema financeiro tradicional. Redes de casas de câmbio ligadas ao grupo facilitam transferências internas e externas, liquidações comerciais e fornecimento de liquidez, ao mesmo tempo em que contornam sanções e restrições financeiras internacionais.
O controle no setor de transporte e logística assegura o abastecimento de combustíveis, mercadorias e tecnologia de duplo uso, essenciais para os esforços militares e a continuidade do conflito, com rotas comerciais que se estendem até Irã, China, Malásia e Hong Kong.
Dimensão financeira da economia de guerra
Dados apurados indicam que a arrecadação anual somada via impostos, taxas, contribuições e serviços chega à casa de cerca de 1,5 trilhão de riais iemenitas, o equivalente a mais de R$ 32 bilhões. Esse montante inclui valores provenientes de taxas alfandegárias, contribuições religiosas, cobranças suplementares e custos de importação que recaem diretamente sobre o setor privado.
Essa estrutura econômica permite manter o financiamento constante para o aparato militar e de segurança dos Houthis, além de garantir renda aos grupos e indivíduos ligados à milícia, assegurando assim a sustentação da guerra que marca o país há mais de uma década.
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