Pular para o conteúdo
Mundo

Mercado de renda fixa ajusta expectativas após 1º turno e analisa cenários para 2º turno das eleições

Após valorização após o primeiro turno, especialistas debatem riscos e oportunidades para investidores de renda fixa antes do segundo turno das eleições de 2026.

19/10/2026 às 05h03

Quem adquiriu títulos prefixados do Tesouro Direto antes do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 observou valorização rápida desses papéis. Por exemplo, a taxa do DI para janeiro de 2031 recuou de 13,92% no dia 2 de outubro para 12,25% no dia 9, após Flávio Bolsonaro (PL) superar o presidente Lula (PT) na etapa inicial do pleito.

Esse movimento, contudo, sofreu reversão parcial nos dias seguintes. Com pesquisas indicativas de empate técnico entre os candidatos para o segundo turno, como mostraram levantamentos da Quaest e do Datafolha, a taxa voltou a subir, fechando em 12,78% no dia 16 de outubro, devolvendo cerca de um terço do movimento inicial.

Análise dos especialistas sobre o movimento da curva de juros

Fernando Benavenuto, sócio da Anvex Capital, atribui parte desse movimento a uma “reprecificação eficiente” relacionada ao prêmio eleitoral, que, segundo ele, corresponde a uma queda de 100 a 120 pontos-base no período analisado. O restante seria consequência de fatores externos, ajustes técnicos e uma revisão marginal das expectativas para a taxa Selic. Para Benavenuto, a curva de juros deve continuar reagindo a cada nova pesquisa até o segundo turno, especialmente se o cenário passar a favorecer Lula, hipótese na qual o DI jan/31 poderia retornar ao patamar próximo a 13,90%.

Leia também: Semana decisiva: segundo turno das eleições e IPCA-15 são os focos da agenda econômica

Gabriel Magno, sócio da AW Capital, apresenta uma visão mais otimista em relação às chances de Flávio Bolsonaro, estimando entre 90% e 95% a probabilidade de vitória do candidato do PL. Já Benavenuto considera que o nível atual da curva aproxima-se do cenário otimista, mas sem dar a eleição como decidida, e não acredita numa precificação de 80% a 90% de chance para qualquer candidato.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, destaca que foi a ponta longa da curva, mais sensível ao risco fiscal e político, que mais se beneficiou da queda. Ele explica que a expectativa de um pacote fiscal crível pode valorizar a moeda nacional, reduzir a atividade econômica e acelerar a queda da inflação, abrindo espaço para cortes adicionais na Selic.

Expectativas de ajustes e desafios futuros

a taxa Selic terminal projetada pela curva para 2027 recuou de 13,50% para 12,50% após o primeiro turno, revelando otimismo em relação a possíveis ajustes fiscais. Contudo, os especialistas ressaltam que essa projeção expressa uma expectativa e não um ajuste consolidado. Benavenuto aponta que o mercado comprou a promessa de austeridade fiscal, mas ainda não precificou completamente o tamanho do esforço necessário para reduzir a dívida pública.

Sung acrescenta que um eventual novo governo poderá contar com uma “lua de mel” de seis a nove meses com o mercado para implementar sua agenda fiscal, ressaltando a importância de aprovar pautas no Congresso nesse período.

Cenários projetados para o segundo turno e impactos nos juros

  • Vitória de Flávio com equipe e regra fiscal críveis: Benavenuto projeta que o DI jan/31 deve ficar entre 11,50% e 12,00% nas semanas seguintes, enquanto Magno espera passagem para níveis entre 11,00% e 11,50%, evoluindo para dígito único com o ajuste concluído. Sung indica otimismo no curto prazo que precisa ser respaldado por medidas concretas.
  • Vitória de Flávio com decepção fiscal: Pode haver devolução significativa da redução das taxas ao longo de semanas ou meses, com a curva retornando de forma rápida para níveis entre 13,00% a 13,50%. Benavenuto caracteriza esse movimento como “comprar no boato, vender no fato”.
  • Reeleição de Lula: Segundo Benavenuto, a curva de juros deve subir além dos 13,90% registrados antes do primeiro turno e Magno espera isso ocorrer em patamares ainda mais elevados. Nessa hipótese, os juros sobem, o dólar se valoriza e a Bolsa cai devido ao aumento do prêmio pelo risco fiscal.

Recomendações para investidores antes do segundo turno

Benavenuto ressalta que investir em títulos prefixados ou vinculados ao IPCA+ de longo prazo antes da definição do segundo turno representa uma aposta na confirmação do cenário favorável, com risco de perdas elevadas em marcação a mercado se as expectativas não se concretizarem.

Alternativamente, optar por títulos pós-fixados pode permitir que o investidor atravesse o período da eleição com juro real elevado e sem risco de perdas por marcação, embora possa significar abrir mão de parte dos ganhos decorrentes da queda dos juros.

Outra estratégia sugerida é fracionar aportes para diluir o preço médio e reduzir a necessidade de acertar o resultado eleitoral.

Para Magno, os títulos Tesouro IPCA+ são preferíveis, pois, apesar da queda recente nas taxas, os níveis ainda estão elevados. Ele observa que os prefixados já perderam boa parte do prêmio, e que o pós-fixado perde atratividade com os cortes esperados na Selic.

📰 Veja também