Fiagros registram alta de até 11% após primeiro turno, mas inadimplência ainda preocupa investidores
Fundos de investimento no agronegócio tiveram valorização expressiva na semana seguinte ao primeiro turno das eleições, porém seguem impactados por inadimplência.
Os fundos de investimento em agronegócio, conhecidos como Fiagros, apresentaram ganhos de até 11% na semana após o primeiro turno das eleições presidenciais, conforme levantamento do InfoMoney com base na ferramenta de fundos da Economatica. O levantamento aponta que dez Fiagros tiveram valorização superior a 5% entre 2 e 9 de outubro, período que incluiu a votação em que Flávio Bolsonaro ficou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o segundo turno marcado para 25 de outubro.
Parte desse desempenho positivo decorreu da redução nos juros futuros e da valorização dos ativos de renda variável, refletindo expectativas de que uma possível vitória do candidato mais alinhado ao mercado promoveria uma política fiscal mais rígida e permitiria cortes maiores da taxa básica de juros.
No entanto, apesar da valorização recente, algumas carteiras ainda apresentam perdas acumuladas no ano, em função de inadimplência registrada em determinados setores. Mesmo com esses desafios, os Fiagros mantêm alta rentabilidade com dividendos que podem alcançar dividend yield de até 19% ao ano, mostrando o potencial de retorno desses fundos.
Cotas Negociadas com Descontos e Atratividade dos Dividendos
Segundo Jônatas Couri, diretor de Agro da Suno Asset, a maioria dos Fiagros listados ainda opera com desconto entre 10% e 15% em relação ao valor patrimonial estimado pelos gestores, com nove dos dez fundos do levantamento apresentando P/VP (preço sobre valor patrimonial) entre 0,6 e 0,9. Couri também destaca um retorno médio oferecido pelos fundos equivalente a CDI mais 2% ao ano, que pode subir para CDI mais 3% ao ano com valorização do preço das cotas, e sem incidência de imposto de renda.
A sócia-fundadora da Zera.AG, Amanda Coura, complementa que, comparado ao rendimento líquido da Selic atualmente em 13,75%, os Fiagros apresentam pagamento de dividendos mensais entre 1% e 1,5%, isentos de IR, o que significa ganhos superiores aos aplicados em títulos atrelados à Selic, tornando as cotas dessas instituições atrativas para investidores.
Expansão dos Fiagros e Crescimento do Varejo
Dados da Oliveira Trust indicam patrimônio de R$ 65,8 bilhões em julho para os Fiagros, incluindo fundos listados e não listados, com aproximadamente um terço desse total negociado em Bolsa. Coura projeta crescimento para R$ 100 bilhões ainda em 2026, alavancado por ofertas de grandes instituições financeiras, entre elas Itaú Unibanco, BTG Pactual e XP, que somam mais de R$ 20 bilhões em lançamentos.
Além disso, o número de investidores pessoas físicas já ultrapassa 600 mil, correspondendo a cerca de um terço do montante aplicado, o que contribui para maior liquidez mas também para maior volatilidade nas cotações, já que o investidor de varejo tende a reagir com rapidez às oscilações de mercado.
Diversificação, Riscos e Segurança Jurídica
Na visão dos especialistas, os Fiagros apresentam diferentes estratégias de investimento, que abrangem recebíveis de crédito para produtores, aquisição de terras e financiamento de infraestrutura rural, como sistemas de irrigação e armazenagem. Esse cenário indica maior diversidade de perfis de riscos e retornos a serem analisados cuidadosamente pelos investidores, considerando fatores como liquidez, pagamento de dividendos e diversificação geográfica e setorial, especialmente no contexto de fenômenos climáticos como o El Niño já confirmado para a safra 2026/27.
Entre os desafios persistentes, a insegurança jurídica destaca-se como entrave relevante, com decisões judiciais recentes que não reconhecem adequadamente a regulamentação dos Fiagros, elevando custos e riscos operacionais, por exemplo, em operações envolvendo o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). Para 2027, a expectativa do mercado é por uma maior pacificação jurídica que possa estimular o apetite dos investidores e melhorar a precificação dos créditos no segmento.
Além disso, gestores apontam para uma tendência de consolidação dos Fiagros, com maior especialização dos fundos e gestoras no agronegócio, que deve contribuir para a estabilidade dos dividendos, melhor avaliação dos riscos e desenvolvimento sustentável do mercado de capitais no setor rural.