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11 anos após desastre de Mariana, pescadores do ES temem voltar ao mar contaminado

Comunidades ribeirinhas do Espírito Santo relatam medo e mudanças na rotina após contaminação causada pelo rompimento da barragem em Mariana.

Onze anos depois do rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, a vida de pescadores e comunidades indígenas no Espírito Santo segue marcada por medo e incerteza quanto à segurança do consumo e comercialização de peixes. O desastre, que afetou a bacia do Rio Doce e chegou ao litoral capixaba, mudou profundamente a relação dessas populações com a pesca.

Na aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz, a comunidade indígena deixou de pescar e consumir peixes do rio. O cacique Kara'í Perú revelou que, diante da contaminação, famílias passaram a comprar pescado de outras regiões, rompendo tradições culturais e alimentares que existiam há décadas. A preocupação vai além do sustento material, envolvendo também uma conexão espiritual com as águas.

Em Regência, distrito de Linhares, pescadores como Leônidas Carlos e José Sabino relatam sentimentos de insegurança para voltar à pesca profissional, mesmo após o governo federal autorizar a atividade em um trecho próximo à foz do Rio Doce. A desconfiança permanece devido à qualidade da água e à possibilidade de contaminação dos peixes.

Leia também: Estudo da Ufes detecta peixes contaminados na bacia do Rio Doce após 11 anos

Pesquisas realizadas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) encontraram peixes com deformidades e tumores ao longo da bacia do Rio Doce, indicando alterações no ecossistema aquático persistentes. Além disso, avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) identificou excesso de cádmio, um metal pesado, em peixes de água doce, contraindicando seu consumo.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acompanha os impactos ambientais e segue monitorando a fauna. Contudo, limitações técnicas dificultam identificar as causas de mortes e anomalias em animais encontrados pelos pescadores.

As empresas envolvidas no desastre, como Samarco e Vale, afirmam manter medidas de monitoramento e reparação ambiental. Samarco informou ter investido centenas de milhões de reais em pesquisas e acompanhamento da biodiversidade aquática, com dados públicos disponíveis para consulta.

O governo do Espírito Santo planeja investir R$ 2,44 bilhões na recuperação da bacia do Rio Doce, com ações focadas no fortalecimento da pesca artesanal, aquicultura e reflorestamento na região. Apesar das iniciativas, a ausência de monitoramento contínuo antes de 2015 limita comparações entre a situação atual e o período pré-desastre.

Para pescadores e indígenas, a insegurança sobre os riscos à saúde humana decorrentes do consumo do pescado contaminado mantém uma relação frágil com o rio e o mar, afetando não só a economia, mas também aspectos culturais e sociais dessas comunidades.

Tags: Espírito SantoRio Docecontaminação ambientaldesastre de Marianapesca

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