Professor cego supera desafios e lidera formação de educadores para alunos com deficiência em Ribeirão Preto
Fábio Deodato, cego desde o nascimento, dedica 17 anos à educação inclusiva e capacita 150 professores na rede municipal de Ribeirão Preto.
Fábio Deodato nasceu cego e, após enfrentar subestimação e falta de acessibilidade durante a infância e adolescência, tornou-se um importante educador em Ribeirão Preto, São Paulo. Com 43 anos, acumula 17 anos de experiência na rede municipal de ensino, sendo 14 dedicados ao atendimento direto a estudantes com deficiência.
Aos seis anos, já demonstrava interesse em ensinar braile para possibilitar a leitura a outras pessoas cegas. Hoje, ele coordena a formação de 150 docentes responsáveis pelo atendimento de aproximadamente 1,9 mil alunos com deficiência nas escolas municipais da cidade.
Atualmente, Fábio é responsável pela elaboração e oferta de conteúdos para a formação continuada dos professores que atuam na modalidade de Atendimento Educacional Especializado (AEE). Esses encontros ocorrem presencialmente, por videoconferência e por meio de módulos online.
O AEE complementa o ensino regular com recursos e estratégias adaptadas às necessidades de cada estudante, que podem incluir cegueira, surdez, deficiências físicas ou intelectuais, transtorno do espectro autista, síndrome de Down, altas habilidades ou múltiplas deficiências.
Além de formar professores, Fábio desenvolve materiais pedagógicos e acompanha alunos, especialmente aqueles com deficiência visual, realizando visitas às unidades escolares. Ele utiliza leitores de tela para acessar informações digitais e faz uso de ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na leitura e descrição dos conteúdos.
Quando ingressou na rede municipal, em 2009, Ribeirão Preto contava apenas com duas salas de AEE; atualmente são quase 40, refletindo o crescimento na oferta de atendimento especializado.
Fábio relata que sua trajetória foi marcada pela ausência de materiais acessíveis e pela falta de preparo de professores para acolher estudantes com deficiência. Na infância, sua mãe precisou ajudar na transcrição de tarefas para braile, já que muitos educadores desconheciam a escrita tátil.
Determinado, cursou pedagogia após um curso técnico em administração e, ao longo da vida, concluiu outras cinco formações relacionadas a áreas como administração, educação especial e gestão pública. Enfrentou desafios no ensino superior pela falta de recursos financeiros e estruturais para atender suas necessidades, dependendo da colaboração de colegas e professores.
Nascido em São Paulo em 1983, mudou-se para Ribeirão Preto aos nove anos. Em 2023, recebeu o título de cidadão ribeirão-pretano. Filho de mãe baiana e pai cearense, ele comenta que a família não tinha referências de pessoas cegas antes de seu nascimento, quando foi diagnosticado com cegueira congênita e hipoplasia do nervo óptico.
Para Fábio, o grande obstáculo para a inclusão ainda é o capacitismo, e defende que a deficiência não deve definir a identidade das pessoas. “Por que pessoa com deficiência? Porque a deficiência vem depois da pessoa. Primeiro é a pessoa, ela tem um nome”, afirma.