Delegado preso em MS movimentou R$ 442 mil e construiu mansão de R$ 2 milhões, aponta Gaeco
Investigação aponta esquema envolvendo policiais civis e militares que desviavam drogas para o tráfico, com movimentações financeiras suspeitas.
O delegado da Polícia Civil, Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, está no centro de uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) que apura movimentações financeiras suspeitas e um esquema de desvio de drogas apreendidas em Mato Grosso do Sul. De acordo com a denúncia apresentada pelo Gaeco, o policial movimentou R$ 442.652 em valores considerados suspeitos e investiu cerca de R$ 1,6 milhão na construção de uma residência de alto padrão em Campo Grande, estimada em aproximadamente R$ 2 milhões.
A Operação Infiltrados, deflagrada em 24 de setembro, resultou na prisão do delegado e de outros investigados, totalizando 23 denunciados. O Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul (MPMS) requer a condenação dos envolvidos, incluindo a perda dos cargos públicos e a aplicação de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 10 milhões. A denúncia fundamenta-se especialmente na incompatibilidade entre a renda declarada pelo delegado e suas movimentações financeiras, além de seu patrimônio.
Esquema e movimentações financeiras
O relatório do Gaeco destacou três transferências via Pix, totalizando R$ 75 mil, feitas pelo delegado para uma empresa vinculada ao investigador Douglas Tobias, que também figura entre os suspeitos. Essa empresa, segundo a investigação, foi utilizada para lavagem de dinheiro. Douglas Tobias apresenta ele próprio movimentações suspeitas que ultrapassam R$ 500 mil, incluindo depósitos em contas pessoais e empresariais, além da posse de bens incompatíveis com sua renda declarada, como uma residência avaliada em R$ 4 milhões e um veículo de luxo.
Além deles, outros policiais civis e militares são apontados como parte do esquema criminoso que rastreava, apreendia e desviava carregamentos de drogas. O grupo utilizava equipamentos de rastreamento por GPS, drones e acessos a sistemas de inteligência restritos para monitorar rotas, veículos e locais de armazenamento das substâncias ilícitas. Em troca, recebiam propinas de até R$ 60 mil por ação bem-sucedida.
A estrutura do grupo e atuação dos investigados
A investigação atribui funções específicas aos membros da organização, desde o monitoramento dos carregamentos até a revenda das drogas desviadas. Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, foi identificado como um articulador que repassava informações e negociava a parcela da droga desviada. Dados bancários indicam transferências de dinheiro de traficantes para policiais envolvidos, reforçando a ligação entre agentes públicos e o crime organizado.
O Ministério Público também identificou o uso indevido de sistemas funcionais para consultas e fornecimento de informações privilegiadas ao grupo criminoso. Entre os citados estão policiais civis, policiais militares e um policial penal, que juntos formariam o núcleo operacional da organização.
Resposta oficial e desdobramentos
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou que trabalha com rigor na apuração dos desvios e reforça o compromisso com a legalidade e transparência. Ressaltou que servidores envolvidos em irregularidades estão sendo investigados e que não compactua com práticas ilícitas. O advogado do delegado preso declarou estar analisando os autos, sem ter solicitado a liberdade do cliente até o momento.
O caso segue em andamento no Poder Judiciário, onde o Ministério Público busca o confisco de bens, a expulsão dos envolvidos das funções públicas e a reparação financeira pelos danos causados à coletividade.