Sono adequado promove limpeza cerebral e insônia crônica pode comprometer a saúde neurológica
Estudos indicam que o sono profundo ativa o sistema glinfático, que elimina toxinas no cérebro, e que a insônia recorrente pode aumentar riscos de demência.
Durante o sono profundo, o cérebro ativa um processo essencial para sua manutenção: o sistema glinfático. Esse mecanismo é responsável por eliminar substâncias tóxicas acumuladas entre as células cerebrais ao longo do dia, por meio da circulação do líquor, fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal.
O funcionamento do sistema glinfático depende do aumento temporário dos espaços entre as células cerebrais durante o sono, facilitando a circulação do líquor e a remoção dos resíduos metabólicos. Essa ação tem sido comparada a uma “faxina” cerebral necessária para preservar a saúde neurológica.
Porém, a insônia frequente pode prejudicar essa limpeza natural. Noites mal dormidas e sono fragmentado comprometem a eficiência do sistema glinfático, o que favorece o acúmulo de proteínas associadas a doenças neurodegenerativas, como a beta-amiloide e a tau, ligadas ao Alzheimer.
Segundo o neurologista Diego Carvalho, o impacto negativo não resulta de uma única noite ruim, mas sim da repetição constante desses episódios, que diminui a capacidade de recuperação do cérebro com o passar dos anos.
Estudos, incluindo uma pesquisa da Clínica Mayo nos Estados Unidos, apontam que pessoas acima de 60 anos com insônia crônica têm cerca de 40% mais risco de desenvolver demência em até cinco anos. Entretanto, a qualidade do sono é apenas um dos vários fatores que influenciam o desenvolvimento dessas condições, reforçando a importância de hábitos saudáveis e acompanhamento médico.
Além da cognição, a falta de sono afeta o humor, a concentração, o desempenho no trabalho e a disposição para atividades diárias. Casos como os de Vitória, que enfrenta insônia desde a infância, e Patrick, que sentiu a atenção prejudicada no trabalho devido à privação do sono, ilustram esses impactos.
Para melhorar a qualidade do sono, especialistas recomendam adotar rotinas regulares para dormir e acordar, evitar o uso de telas antes de deitar, reduzir a ingestão de cafeína no fim do dia e buscar exposição à luz natural pela manhã.
O psiquiatra Alexandre Azevedo, do laboratório do sono da USP, ressalta que o uso de medicamentos não é a primeira escolha no tratamento da insônia. A orientação é buscar ajuda quando a dificuldade para dormir se torna frequente e interfere na rotina diária.
Dessa forma, é possível preservar a função cerebral, já que o sono não serve apenas para descanso, mas é fundamental para a manutenção e proteção do cérebro.