El Salvador revoga obrigatoriedade do uso do bitcoin e descontinua plano ambicioso do ‘país do bitcoin’
Projeto de El Salvador para adotar o bitcoin como moeda oficial foi descontinuado após baixa adesão popular e acordo com o FMI.
Em 2021, El Salvador tornou-se pioneiro mundial ao adotar o bitcoin como moeda oficial, junto ao dólar americano. No entanto, após cinco anos, o governo do presidente Nayib Bukele revogou a obrigatoriedade do uso da criptomoeda, tornando sua aceitação voluntária, como parte de um acordo financeiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
O projeto que inicialmente prometia prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira não alcançou os resultados esperados. Pesquisas realizadas pelo Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop) indicaram que mais de 70% dos salvadorenhos não perceberam benefícios econômicos diretos, e quase 92% não utilizaram o bitcoin no ano anterior à pesquisa, sendo que 76% nunca o fizeram.
Além disso, a esperada construção da Bitcoin City, uma cidade futurista planejada para ser abastecida pela energia geotérmica de um vulcão e dedicada à mineração da criptomoeda, não saiu do papel, assim como a emissão dos chamados “títulos vulcão” para financiar o projeto permanece não concretizada.
O governo estabeleceu um fundo inicial de US$ 150 milhões para incentivar o uso da carteira digital Chivo, inclusive oferecendo um bônus de US$ 30 para cada cidadão que a instalasse, além de investir outros US$ 50 milhões em infraestrutura, como caixas eletrônicos para bitcoin. No entanto, a carteira digital passou recentemente ao controle da empresa privada Linguard Labs, em uma parceria que mantém o Estado como sócio, sinalizando uma transferência de responsabilidade operacional.
Os dados oficiais referentes a remessas por meio de carteiras digitais revelaram que apenas 0,7% do total de US$ 3,2 bilhões enviados ao país em quatro meses de 2026 utilizaram criptomoedas, confirmando que a maioria das transações continua ocorrendo por meios tradicionais.
Especialistas, como o economista Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de El Salvador, consideram que o projeto fracassou em seus objetivos originais. A própria população demonstrou pouca adesão ao uso da criptomoeda, e a aceitação do bitcoin no comércio e nos pagamentos de impostos permaneceu limitada, conforme pesquisa da CID-Gallup de 2022.
O acordo firmado com o FMI, previsto para um financiamento de US$ 1,4 bilhão, estipulou a redução dos riscos associados ao bitcoin, incluindo a suspensão das compras pelo governo da criptomoeda com recursos públicos, embora as autoridades tenham informado que aquisições recentes ocorreram por meio de doações privadas não reveladas.
A experiência de El Salvador demonstrou que mesmo com o respaldo legal, educação e infraestrutura, a adoção do bitcoin como moeda circulante enfrenta barreiras significativas, especialmente quando a população não manifesta interesse expressivo. O caso ressalta os desafios de implementar políticas monetárias baseadas em criptomoedas em níveis nacionais.
Apesar das dificuldades, especialistas destacam o valor simbólico da iniciativa para o bitcoin e confirmam que El Salvador ganhou visibilidade mundial ao inovar nesse campo, embora outros países ainda devem enfrentar obstáculos para replicar o modelo.