Advogados, médicos e sócios de bancos lideram pagamento de Imposto de Renda sobre dividendos em 2026
Relatório exclusivo da Folha revela que profissionais de alta renda recolheram mais IR sobre dividendos que acionistas de grandes empresas entre janeiro e julho.
Entre janeiro e julho de 2026, advogados, sócios de bancos, médicos e contadores de alta renda recolheram mais Imposto de Renda sobre dividendos do que acionistas de grandes companhias abertas, aponta relatório inédito da Finance Consultoria. A apuração foi elaborada com informações da Receita Federal, obtidas via Lei de Acesso à Informação, e fornecida com exclusividade à Folha.
O estudo indica que as atividades jurídicas, contábeis e de auditoria foram responsáveis por R$ 426,5 milhões em retenções do imposto no período. Já o setor financeiro, que contempla bancos e instituições semelhantes, arrecadou R$ 566,3 milhões, enquanto a área de saúde humana, englobando empresas e clínicas médicas, recolheu R$ 235,3 milhões.
Em contraste, setores ligados ao refino de petróleo e à indústria extrativa mineral — que incluem grandes empresas como Petrobras e Vale — representaram somente 1,4% da arrecadação dos dividendos até julho. De acordo com o estudo assinado pelos economistas José Roberto Afonso, Thomás Cordeiro e pelo advogado Gabriel Rizza, essa disparidade chama a atenção para potenciais mudanças estruturais.
A retenção de Imposto de Renda sobre dividendos incide com alíquota de 10% sobre rendimentos mensais acima de R$ 50 mil pagos por uma mesma empresa a um sócio residente no Brasil. Também se aplica a valores remetidos para sócios no exterior. Profissionais de alta renda costumam atuar via empresas próprias que recebem pelos serviços e distribuem lucros aos sócios, o que explica a forte arrecadação nos setores jurídicos e de saúde.
Os autores do estudo destacam que a baixa participação das grandes empresas na arrecadação pode estar relacionada a mudanças na forma de distribuição dos lucros ou à estrutura societária, como o uso de holdings entre pessoas jurídicas, que não sofrem tributação sobre os dividendos conforme a legislação vigente.
O novo imposto sobre dividendos foi criado para compensar a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física, com a meta inicial de arrecadação prevista pelo governo de R$ 29,9 bilhões para 2026. Entretanto, diante dos resultados inferiores às expectativas, a Receita Federal revisou a estimativa para R$ 10,5 bilhões em setembro.
Até agosto, a arrecadação totalizou R$ 4,05 bilhões, com R$ 2,61 bilhões provenientes de dividendos pagos a residentes no país e R$ 1,41 bilhão de remessas ao exterior.
Especialistas como Thais Veiga Shingai, sócia do escritório Mannrich e Vasconcelos Advogados, afirmam que a retenção atinge regularmente os profissionais de alta renda, mas pode haver planejamento tributário por parte de grandes empresas para reduzir a carga, por exemplo, por meio da retenção de lucros, uso de holdings e substituição de dividendos por juros sobre capital próprio.
O estudo defende que a análise detalhada dos regimes tributários das empresas, como Simples Nacional, lucro presumido ou lucro real, seria importante para identificar os contribuintes por trás da arrecadação e compreender o fenômeno observado. Contudo, a Receita não disponibilizou esses dados individualizados, o que limita a investigação.