Crise do sistema de saúde britânico evidencia desafios futuros para o SUS no Brasil
Especialistas destacam semelhanças entre os sistemas NHS e SUS e alertam para questões como desigualdade regional e sobrecarga na atenção primária.
A crise que atualmente abala o sistema público de saúde britânico, o NHS, traz lições relevantes para o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, evidenciando desafios que tendem a ganhar peso em ambos os países. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil ressaltam que aspectos como desigualdade no acesso, sobrecarga dos serviços de atenção primária e a necessidade de reformas estruturais são questões comuns nas duas realidades.
A médica brasileira Ana Luíza Gibertoni Cruz, que atua no NHS desde 2012 após experiências no SUS, destaca que a crise no Reino Unido decorre de uma combinação de baixos investimentos prolongados, aumento da demanda e envelhecimento da população com maior convívio com doenças crônicas. Ela ressalta o impacto da restrição orçamentária e a necessidade de readequação do modelo de atendimento, principalmente para evitar sobrecarga em hospitais e prontos-socorros.
Desigualdades regionais e acesso desigual
Tanto o SUS quanto o NHS enfrentam a dificuldade de garantir atendimento de qualidade e prazo razoável em todo o território nacional. No Reino Unido, o atendimento varia entre as quatro nações constituintes e, mesmo dentro da Inglaterra, há grandes disparidades, como demonstrado pela diferença de oito vezes na lista de espera por tratamento eletivo entre regiões como Manchester e a Cornualha.
No Brasil, a extensão territorial e a distribuição populacional também implicam em desigualdades marcantes, além de desafios agravados pela insuficiência e má distribuição de profissionais de saúde, especialmente médicos. Dados mostram que o Sudeste brasileiro possui 3,77 médicos por mil habitantes, enquanto o Norte tem apenas 1,70.
Reorganização do atendimento primário para evitar sobrecarga
Uma das estratégias adotadas pelo NHS para enfrentar a crise é o fortalecimento da atenção primária, transferindo parte do atendimento dos hospitais para as comunidades e ampliando o foco na prevenção e no cuidado local com a população. Isso inclui o papel central dos general practitioners (GPs) como porta de entrada.
No SUS, a Estratégia Saúde da Família é reconhecida como exemplo mundial de atenção primária, mas os especialistas defendem que a regionalização e descentralização precisem avançar ainda mais para garantir acesso e qualidade uniforme em todas as regiões do país.
Uso e valorização de equipes multidisciplinares
Um diferencial apontado no NHS é a maior autonomia e utilização de profissionais de saúde não médicos, como enfermeiros, farmacêuticos clínicos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, que desempenham funções importantes na linha de frente do atendimento, prescrevendo medicamentos e orientando pacientes.
A médica Ana Luíza Cruz destaca que, diferentemente do sistema britânico, o Brasil ainda possui uma estrutura muito centrada no médico como autoridade final. Ela destaca que a ampliação destas atribuições requer treinamento, regulamentação e suporte clínico adequado para garantir a qualidade do atendimento.
Gestão das filas e novas tecnologias
A demora no atendimento especializado e as longas filas são uma das marcas da crise do NHS. Em julho de 2026, mais de 6,2 milhões de pacientes aguardavam tratamento, com tempo médio de espera de 12 semanas, acima dos níveis pré-pandemia. Para enfrentar isso, o serviço britânico adotou inovações como telemedicina, triagem remota e enfermarias virtuais, além de esforços para qualificar a fila de espera, priorizando casos de maior necessidade.
No SUS, a gestão das filas enfrenta desafios semelhantes, e os especialistas reforçam a importância de um fortalecimento da atenção primária para realizar triagens eficazes e direcionar os pacientes de forma adequada, evitando superlotação e atrasos no sistema.
Retenção e bem-estar dos profissionais de saúde
Tanto no NHS quanto no SUS, o esgotamento profissional é um problema crescente, com impacto direto na qualidade do atendimento. O NHS enfrenta deficit de cerca de 100 mil vagas equivalentes a tempo integral na Inglaterra e alta rotatividade de funcionários.
Para minimizar o problema, o sistema britânico tem investido em políticas de apoio à saúde mental e na organização do trabalho para reduzir a sobrecarga. Essas iniciativas são consideradas mais avançadas em relação ao cenário brasileiro, que poderia se inspirar nessas experiências para melhorar a retenção especialmente na atenção básica.