Avanços na Sobrevida do Câncer em 50 Anos: Estados Unidos à Frente, Brasil Enfrenta Desafios na Adoção
Nos últimos 50 anos nos EUA, a taxa de sobrevida em cinco anos para cânceres subiu de 49% para 71%, porém avanços chegam ao Brasil de forma desigual.
Nos Estados Unidos, a taxa de sobrevida em cinco anos para pacientes com câncer elevou-se significativamente nas últimas cinco décadas, saltando de 49% para 71%, segundo o Relatório de Progresso contra o Câncer 2026 da Associação Americana de Pesquisa em Câncer (AACR). No entanto, essa melhora varia bastante entre tipos de tumores e não reflete a realidade brasileira, já que o país não possui registro populacional comparável.
Um exemplo marcante das conquistas na oncologia é a leucemia mieloide crônica. No fim dos anos 1970, apenas 21% dos diagnosticados permaneciam vivos após cinco anos; hoje, essa taxa é de 71%. Tal avanço deve-se, em grande parte, à descoberta da alteração genética responsável pela doença e ao desenvolvimento do imatinibe, medicamento lançado em 2001 que atua na proteína anormal que impulsiona a multiplicação das células cancerígenas. Conforme o onco-hematologista Breno Gusmão, do Comitê Médico da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), para muitas pessoas, o diagnóstico de leucemia mieloide crônica hoje permite vida próxima à normal, com possibilidade de trabalho e viagens, e alguns podem até interromper o tratamento.
No mieloma múltiplo, outro câncer do sangue, a evolução dos tratamentos foi gradual. A introdução do transplante autólogo nos anos 1990, seguida por novas classes de medicamentos, anticorpos específicos e técnicas como CAR-T, tornaram as recaídas mais tratáveis, embora a doença não tenha cura definitiva para a maioria dos pacientes. Gusmão destaca que o sangue, por suas características biológicas, tem se beneficiado mais rapidamente de terapias direcionadas, enquanto tumores sólidos enfrentam maiores obstáculos para tratamentos personalizados.
O câncer de pulmão teve a sobrevida em cinco anos aumentada de 13% para 29%. Esse resultado resulta da combinação da redução do tabagismo — com queda de 42,4% para 9,9% no consumo entre adultos americanos desde 1965 —, diagnóstico precoce aprimorado e avanços em cirurgias e imunoterapias. Mesmo pacientes com metástases podem viver significativamente mais, com tratamentos contínuos evitando hospitalizações.
Entre crianças e adolescentes, a melhoria foi ainda mais expressiva: a sobrevida foi ampliada de 63% para 86% por meio de estudos clínicos coordenados, especialmente pelo Children’s Oncology Group, que revolucionaram o tratamento de leucemia linfoide e linfoma de Hodgkin, doenças em que a cura é hoje provável em muitos casos. Contudo, tumores raros como o glioma difuso de linha média mantêm prognóstico grave, com sobrevida em cinco anos em torno de 3%.
Por outro lado, cânceres como os de pâncreas, esôfago, fígado e estômago continuam apresentando avanços lentos, com sobrevida em cinco anos ainda abaixo de 40%. A falta de exames de rastreamento eficazes, sintomas vagos e a localização dos tumores dificultam o diagnóstico precoce e limitam opções terapêuticas. Segundo o oncologista Tiago Cordeiro Felismino, do A.C.Camargo Cancer Center, a medicina de precisão abrange poucos casos nesses tumores devido à complexidade biológica e baixa frequência de alterações genéticas alvo para tratamentos específicos.
No Brasil, a situação é desigual. Enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o imatinibe para leucemia mieloide crônica há duas décadas, terapias avançadas como CAR-T permanecem restritas à saúde suplementar ou acessadas via medidas judiciais. O acesso a exames complementares, início rápido do tratamento e medicamentos inovadores é mais limitado no setor público, fator que acompanha o desafio da Lei dos 60 dias, que prevê iniciar o tratamento em até dois meses após o diagnóstico, mas que nem sempre é cumprida, em especial fora das grandes cidades.
Apesar de melhorias no rastreamento para cânceres como mama, colo do útero e colorretal, a deficiência no encaminhamento e tratamento após o diagnóstico impacta negativamente a sobrevida. Assim, a ciência avança, mas a logística e a equidade no acesso continuam sendo entraves significativos para a efetividade dos avanços em saúde oncológica no país.
Especialistas ressaltam que os próximos avanços dependerão da decodificação genética de tumores pouco estudados e da adaptação de terapias promissoras a contextos locais. A biologia de alguns cânceres impõe limites à velocidade das descobertas, mas o aprimoramento do acesso ao diagnóstico e tratamentos eficazes permanece fundamental para transformar conhecimento em vidas salvas.