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Educação

Singular ou plural? Entenda a importância da expressão ‘mudança climática’ para o debate ambiental

A escolha entre ‘mudança climática’ e ‘mudanças climáticas’ reflete visões distintas do fenômeno e impacta seu entendimento científico e público.

Por redação gnews 13/10/2026 às 03h12

Uso singular versus plural na expressão ‘mudança(s) climática(s)’: uma análise histórica e científica

Durante uma visita ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o professor Niro Higuchi alertou para o uso correto do termo, recomendando o singular “mudança climática” em vez do plural “mudanças climáticas”. Embora a princípio essa distinção tenha parecido apenas um detalhe acadêmico, ela carrega uma mensagem importante sobre a compreensão do fenômeno.

O termo “climate change” foi popularizado em 1975 pelo geoquímico Wallace Smith Broecker, em artigo na revista Science, que chamou atenção para uma alteração significativa no estado climático da Terra. Na visão física e termodinâmica que Broecker adotou, esse processo seria uma transição de um equilíbrio climático a outro, daí a preferência pelo singular.

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Broecker (1931–2019) foi pioneiro ao identificar a circulação termoalina global e evidenciar que o clima terrestre pode sofrer mudanças abruptas, não apenas graduais. Sua publicação surgiu em meio a debates sobre a observação de leve resfriamento dos anos 1940 até o início da década de 1970, fenômeno que, segundo ele, era resultado de poluição por aerossóis e ciclos naturais, e não um indicativo de uma nova era glacial iminente. Broecker demonstrou que esse resfriamento temporário mascarava o aquecimento global que ocorreria conforme o efeito estufa, principalmente pelo aumento do CO₂ atmosférico, se intensificaria.

Nos documentos oficiais da ONU, como a Resolução 43/53 de 1988 e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a expressão no singular foi mantida, refletindo a ideia do clima como sistema global e integrado. Em inglês, “climate change” é geralmente considerado um substantivo incontável, o que faz o plural soar estranho.

Já em línguas latinas, incluindo o português, o plural “mudanças climáticas” passou a ser predominante a partir da década de 1990, impulsionado pelos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). A tendência dessas línguas de pluralizar conceitos abstratos para enfatizar manifestações práticas e diversas do fenômeno fez com que o plural fosse adotado para expressar o conjunto de alterações, como regimes de chuva, ventos, eventos extremos e alterações no nível do mar.

No Brasil, o plural se popularizou especialmente na mídia, ONGs e meio acadêmico durante os anos 2000, especialmente após eventos climáticos significativos como o furacão Catarina (2004) e a seca na Amazônia (2005), e a divulgação do quarto relatório do IPCC (AR4) em 2007. Entretanto, no âmbito jurídico e nas políticas governamentais, prevaleceu o uso do singular, como visto na Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei Federal 12.187/2009).

De acordo com a física do sistema Terra, o uso do singular é considerado cientificamente mais rigoroso porque representa uma alteração unificada no balanço energético global da atmosfera devido ao acúmulo de gases de efeito estufa. Em contraste, o plural enfatiza os efeitos locais e específicos, que são manifestações regionais e sintomas decorrentes dessa causa principal única.

Assim, o debate sobre qual forma usar não é mera questão de estilo, mas influencia a percepção do fenômeno sob uma perspectiva integrada e sistêmica (singular) ou na diversidade de seus impactos (plural). A adoção do singular ajuda a focar na causalidade fundamental e reforça a complexidade estrutural do desafio ambiental que afeta a biosfera terrestre.

Sobre o autor: Eric Bastos Gorgens é pesquisador bolsista Produtividade do CNPq, com atuação em projetos na área florestal financiados pelo CNPq e FAPEMIG.

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