México encerra escolas militarizadas após mortes e investiga práticas abusivas
Governo mexicano proíbe instituições educacionais com modelo militar após casos de abuso e mortes de estudantes gerarem revolta social.
O México está em um processo de desmilitarização das escolas que adotam métodos e valores do meio militar, após a morte de uma estudante em um acampamento de verão com práticas militares ter gerado comoção nacional. A presidente Claudia Sheinbaum ordenou a proibição dessas instituições, que precisavam se reinventar diante da medida governamental.
O Colégio Moderno Alarid, localizado na Cidade do México, é um exemplo emblemático dessa transição. Tradicionalmente conhecido por sua organização e disciplina militarizada, a escola mudou suas rotinas, linguajar e uniformes – abandonando elementos típicos do universo militar, como o tratamento do diretor como “comandante” e o uso de termos como “cadetes”. O objetivo é preservar valores como honra, disciplina e sacrifício de forma civil, sem referências explícitas à estrutura militar.
Estima-se que entre 20 e 50 escolas com esse modelo, atendendo a 10 a 20 mil estudantes em todo o país, sofreram impactos da decisão da Secretaria da Educação Pública (SEP). Muitas tiveram suas matrículas reduzidas drasticamente; algumas foram obrigadas a fechar, gerando protestos dos pais que veem na educação militarizada a oferta de disciplina e valores essenciais. Em localidades como Puebla, famílias bloquearam avenidas para pedir a manutenção dessas escolas.
A medida ocorreu após a morte de Dafne Zapata, de 13 anos, por asfixia em um acampamento militar no estado de Tamaulipas em 2026. A investigação apura possível feminicídio, e três pessoas foram presas. Casos anteriores envolveram outros adolescentes, também falecidos ou vítimas de agressões em ambientes escolares militarizados, os quais haviam provocado protestos e o fechamento de algumas instituições.
Além disso, escolas públicas com características militarizadas substituíram instrutores militares por professores civis, o que tem sido criticado por pais que consideram essencial a formação militar para manter a identidade da instituição. A SEP, por sua vez, defende que educação militar formal é papel exclusivo das Forças Armadas, cujas escolas e colégios militares oficiais permanecem ativos e com prestígio considerável no país.
O Heroico Colégio Militar, fundado no século XIX na Cidade do México, é referência tradicional das Forças Armadas mexicanas e considerada uma das instituições mais importantes na formação dos oficiais do Exército. Contudo, denúncias de abusos psicológicos e físicos, inclusive práticas de “trotes” violentos, vêm manchando sua imagem nos últimos anos. O filme “Heroico” (2023) retrata parte dessas denúncias e enfrentou rejeição oficial e ameaças contra seus participantes.
Especialistas destacam que a pedagogia militar, baseada em códigos de honra e disciplina, visa formar caráter, espírito de equipe e resiliência. Ainda assim, evidências psiquiátricas alertam para os efeitos contrários dessas práticas rígidas, como traumas e comportamentos agressivos.
O contexto cultural mexicano, fortemente marcado pelo nacionalismo e tradições militares desde as guerras de Independência e Revolução, reproduz elementos das Forças Armadas em muitas esferas da educação civil. Entre esses aspectos simbólicos estão os cultos semanais à bandeira nacional, desfiles cívico-militares e o uso da postura rígida ao cantar o hino.
Apesar da proibição governamental, a migração para modelos civis tem sido complexa e enfrenta resistência social, religiosa e cultural, na medida em que uma parcela da população valoriza e defende a continuidade da educação com inspirações militares como parte de sua identidade e educação cívica.