Campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro adotam estratégias digitais inspiradas em torcidas de reality shows
Apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro organizam-se em grupos digitais para impulsionar conteúdo e influenciar debates nas redes sociais, na reta final da eleição.
Na reta final do segundo turno das eleições presidenciais marcadas para o dia 25 de outubro de 2026, as campanhas do presidente Lula (PT) e do deputado Flávio Bolsonaro (PL) implementam estratégias digitais que lembram a dinâmica de torcidas organizadas de reality shows, como o Big Brother Brasil (BBB). Segundo o cientista político Renato Dolci, diretor da Dados Timeless, esse modelo de mobilização conecta comunidades digitais para coordenar ações, estimular participação e amplificar a divulgação de mensagens favoráveis aos candidatos.
Os grupos conhecidos como “Exército do Lula”, associado ao deputado André Janones (Avante-MG), e a “Tropa do Flávio”, ligada ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), atuam como canais para orientar seus apoiadores sobre quais conteúdos compartilhar, hashtags impulsionar e pautas defender. “Big Brother no Brasil é maior do que política, tirando eleições majoritárias nacionais. O Big Brother ganha, do ponto de vista de menções, da política todos os anos”, comentou Dolci durante o programa Mapa de Risco do InfoMoney.
A organização desses grupos promove um tipo de atuação simultânea em redes sociais para elevar a visibilidade de tópicos específicos, com orientações claras sobre quando e como se manifestar, além de quais temas evitar. O especialista destaca que, embora a formação dessas comunidades políticas não seja novidade, o diferencial desta eleição é a adoção institucionalizada dessa estratégia pelas campanhas.
O “Exército do Lula” concentra cerca de 6 milhões de seguidores e ampliou sua atuação com a participação crescente de influenciadores e parlamentares na produção de conteúdo digital, especialmente após o primeiro turno. Já a “Tropa do Flávio” aproveita uma estrutura de comunicação descentralizada desenvolvida pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos, caracterizada pela difusão de conteúdos por apoiadores independentes.
Conforme Dolci, a campanha petista reproduz uma dinâmica que auxiliou Jair Bolsonaro a consolidar sua presença digital em eleições anteriores, mas agora há uma mudança para uma organização mais institucional dentro da campanha. Ele ressalta que a comunicação do PT enfrenta desafios para se adaptar à rapidez das redes sociais, devido à sua tradição de estrutura centralizada. A infiltração de comunidades independentes ajudou a ampliar o volume e circulação de mensagens favoráveis, mesmo sem passar pelo crivo oficial da campanha.
Entretanto, o analista alerta que o elevado engajamento digital não necessariamente corresponde a crescimento real na base de eleitores. “A volumetria do digital nos engana nesse sentido. Toda vez que a gente acha que tem muita gente falando, não é necessariamente muita gente. Pode ser pouca gente falando muito alguma coisa”, afirmou. Essa constatação explica a diferença entre o aumento de interações online para Lula e a estabilidade nas pesquisas eleitorais.
O volume de mobilização ajuda a definir quais temas dominam as discussões públicas e podem influenciar eleitores menos envolvidos politicamente. Ainda assim, o especialista enfatiza que estabelecer repercussão e assegurar votos são desafios distintos. Enquanto papéis semelhantes a torcidas de reality shows podem votar múltiplas vezes para seus favoritos, na eleição presidencial cada eleitor terá direito a apenas um voto.