Holanda desenvolve técnica inédita para preservar o prazer feminino após câncer de vulva
Nova cirurgia possibilita a retomada do orgasmo clitoriano em mulheres tratadas contra câncer de vulva.
Quase quatro décadas depois da primeira cirurgia de reconstrução do pênis realizada após um câncer, pesquisadores holandeses desenvolveram um método inovador para preservar a função sexual do clitóris em mulheres submetidas a cirurgias por câncer de vulva. A técnica, criada no centro médico universitário Radboudumc, foi capaz de restaurar o orgasmo clitoriano em 90% das 23 primeiras pacientes avaliadas, geralmente entre três e seis meses após o procedimento.
Tradicionalmente, quando o tumor atingia o clitóris ou suas proximidades, os cirurgiões removiam parte do órgão e simplesmente fechavam a ferida, resultando frequentemente no ocultamento do clitóris sob uma camada de pele. Conforme explica a oncologista ginecológica Mieke ten Eikelder, uma das criadoras da técnica, esse procedimento não considerava a qualidade de vida nem a possibilidade da mulher retomar o prazer sexual.
A inovação consiste não em reconstruir o clitóris do zero, mas em reposicionar os nervos preservados após a remoção do tumor para formar uma nova ponta do clitóris. Essa estratégia visa preservar a sensibilidade e a capacidade de alcançar o orgasmo.
Na Holanda, cerca de 450 mulheres são diagnosticadas anualmente com câncer de vulva, e em aproximadamente um quarto das situações o tumor acomete o clitóris ou áreas próximas, indicando potencial benefício do novo procedimento. Atualmente, a técnica está restrita ao território holandês, sendo aplicada dentro de um programa de pesquisa que envolve o treinamento de oncologistas ginecológicos e cirurgiões plásticos em oito hospitais participantes.
Os resultados iniciais são promissores, mas os pesquisadores ressaltam a necessidade de acompanhamento prolongado das pacientes para confirmar a eficácia e segurança do método, com o suporte da Sociedade Holandesa de Combate ao Câncer. Além disso, há expectativa de que essa abordagem possa beneficiar mulheres vítimas de mutilação genital feminina, que implica na remoção parcial ou total do clitóris.
A perspectiva é disseminar essa técnica para outros países, ampliando o acesso ao tratamento que preserva o órgão e garante uma melhor qualidade de vida sexual às mulheres após cirurgias oncológicas.