França enfrenta impasse entre pressões populistas e desafios fiscais intensificados
Crise política e econômica na França se agrava com protestos, alta da dívida e risco de instabilidade nos mercados financeiros.
Desde 2018, a França vem enfrentando uma crescente tensão entre demandas sociais por melhores condições de vida e desafios fiscais que comprometem a capacidade do governo de responder com medidas financeiras. Naquele ano, o presidente Emmanuel Macron disponibilizou cerca de US$ 11 bilhões em cortes de impostos e aumentos salariais para conter protestos contra os preços altos do gás. Entretanto, em 2026, com novas manifestações—agora relacionadas à educação—tornando-se violentas, o governo encontra-se limitado para usar recursos públicos com o objetivo de apaziguar os ânimos.
Esta dificuldade decorre do cenário fiscal preocupante, com déficit orçamentário e dívida pública próximas de 120% do Produto Interno Bruto (PIB), o que já provoca insegurança nos investidores do mercado de títulos franceses. Sem maioria no Parlamento e com seu mandato próximo do fim, Macron lidera um governo do centro que se vê pressionado tanto pela inação quanto pelos custos de um aumento nos gastos públicos. Ambas as abordagens podem agravar a crise econômica e fortalecer partidos populistas que disputam a eleição presidencial no ano seguinte.
Pressão do mercado e a ascensão do populismo
Especialistas destacam que há um “círculo vicioso” entre a instabilidade política e a turbulência nos mercados financeiros. Investidores exigem maior compensação pelo risco de emprestar aos governos, preferindo líderes capazes de tomar decisões difíceis para conter déficits, como cortes de gastos ou elevação de impostos. Contudo, eleitores cada vez mais optam por opções políticas populistas que prometem manter benefícios públicos e reduzir impostos, rejeitando os sacrifícios fiscais tradicionais.
Na França, esse impasse ficou evidente com protestos que se iniciaram nos setores educacionais e se espalharam para outras áreas da sociedade. Segundo o economista Ludovic Subran, da Allianz, políticos de centro tentam equilibrar disciplina fiscal e demandas sociais, mas enfrentam desgaste ao não conseguirem melhorar as condições dos cidadãos, abrindo espaço para propostas extremistas.
Contexto político no horizonte da eleição presidencial
Com a eleição presidencial marcada para 2027, a oposição populista avança nas pesquisas. Marine Le Pen, líder da extrema direita, figura como favorita para o segundo turno, enfrentando possíveis candidatos da extrema esquerda. Apesar de prometer reduzir o déficit público, especialistas contestam a viabilidade das propostas de Le Pen, que incluem corte de gastos em órgãos públicos, diminuição da contribuição à União Europeia e redução da idade mínima para aposentadoria. Por sua vez, Jean-Luc Mélenchon propõe medidas radicais como o cancelamento parcial da dívida pública, gerando preocupação entre investidores.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu busca aprovar um orçamento para 2027 que contenha o déficit, porém enfrenta oposição política e a complexidade das eleições legislativas que podem seguir a presidencial. O custo dos juros elevados da dívida já pressiona o governo, com previsão de gastar aproximadamente 90 bilhões de euros em 2027 somente com pagamento de juros — valor superior ao destinado a educação e defesa.