Pesquisadores usam olfato dos morcegos para auxiliar na recuperação de florestas degradadas
Estudos da Embrapa Florestas evidenciam que aromas de frutas atraem morcegos para dispersar sementes em áreas abertas.
Pesquisadores da Embrapa Florestas e outras instituições têm desenvolvido há mais de 20 anos estudos que apontam o olfato dos morcegos frugívoros como um recurso promissor para a recuperação de florestas degradadas.
Esses estudos revelaram que aromas extraídos de frutas, especialmente dos gêneros Piper e Ficus, podem ser utilizados para atrair morcegos a áreas abertas ou degradadas próximas a fragmentos de Mata Atlântica. A técnica baseia-se na capacidade olfativa desses animais para localizar frutos maduros, potencializando a dispersão de sementes por meio das fezes dos morcegos.
Um experimento realizado em Fênix, no Paraná, em uma área agrícola a cerca de 50 metros de um remanescente florestal, utilizou frutos artificiais impregnados com óleos essenciais das plantas citadas. O resultado mostrou que os aromas atraíram significativamente mais morcegos, sobretudo da espécie Artibeus lituratus. Cerca de metade dos morcegos capturados apresentaram sementes nas fezes, evidenciando a ação de dispersão.
Publicações científicas de 2007 e 2012 detalharam esse processo, demonstrando aumento da atividade de voo dos morcegos em pontos que receberam os atrativos aromáticos e reforçando a viabilidade de direcionar os animais para áreas específicas onde se deseja promover a chegada de sementes.
Além dos experimentos com essências, um levantamento realizado em 2015 pela Embrapa indicou que morcegos dos gêneros Artibeus, Carollia e Sturnira consomem frutos de mais de 140 espécies vegetais na Mata Atlântica, incluindo espécies pioneiras essenciais para a recuperação da vegetação.
Estimativas derivadas de dados sobre cinco espécies de morcegos indicam uma potencial dispersão diária de sementes entre 600 e 25.930 unidades por hectare, embora esses números variem conforme fatores ambientais e biológicos.
Pesquisas posteriores exploraram quais compostos químicos presentes nos frutos são percebidos pelos morcegos. Uma tese de doutorado, defendida em 2017 na Unesp, mostrou que os animais diferenciam entre monoterpenos e sesquiterpenos, elementos que desempenham papéis distintos na comunicação químico-olfativa entre frutos e dispersores.
A aplicação prática proposta consiste em posicionar atrativos aromáticos em pontos estratégicos de áreas degradadas, especialmente próximas a fragmentos florestais, para aumentar a presença dos morcegos dispersores e incentivar a regeneração natural por meio da chamada "chuva de sementes".
Conforme destacado em uma publicação da Embrapa Florestas de 2025, essa técnica é vista como complemento ao manejo convencional de restauração, que inclui o plantio de mudas e outras ações. Contudo, a recuperação completa depende ainda de etapas subsequentes, como a germinação e o estabelecimento das plantas.
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam a necessidade de ampliar avaliações em diferentes tipos de ambiente e condições de aplicação para confirmar a efetividade da técnica.
Em suma, os estudos confirmam que o sentido olfativo dos morcegos pode ser explorado para facilitar a dispersão natural de sementes em áreas que precisam ser recuperadas, contribuindo para a conservação e a restauração dos ecossistemas florestais.
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