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Em 10 anos, 92 casos de armas de CACs ligados a facções

Levantamento do Instituto Sou da Paz revela envolvimento de colecionadores, atiradores e caçadores com organizações como PCC e CV em 21 estados.

O Instituto Sou da Paz apresentou um levantamento inédito que identificou 92 casos de envolvimento de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) com facções criminosas no Brasil entre 2016 e outubro de 2026. Os registros abrangem 21 estados e envolvem organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV), milícias, grupos de extermínio e quadrilhas especializadas em roubos a banco.

Segundo os dados obtidos pelo g1, São Paulo lidera o número de ocorrências, com 18 casos, seguido pelo Espírito Santo, com 11, e pelo Rio de Janeiro, com 10 casos. A série histórica mostra um aumento no número de registros a partir dos últimos anos, atingindo o pico de 19 casos em 2023 e 2024, e 17 casos em 2025.

Modus operandi e abrangência

O levantamento destaca dois padrões principais para o envolvimento dos CACs com o crime organizado: primeiro, pessoas com registro ou recrutadas para obtê-lo que compram armas legalmente e desviam para criminosos; segundo, integrantes das facções que obtêm registros em nome próprio, às vezes com documentos falsos, para adquirir armamento legalmente e usá-lo em suas atividades ilícitas.

Até 21 estados registraram casos públicos de ligação entre CACs e organizações criminosas, demonstrando aumento na abrangência geográfica e na diversidade dos grupos envolvidos. Além de PCC e CV, o estudo também identificou participação de milícias, grupos de extermínio, pistoleiros e quadrilhas de grilagem de terras.

Casos emblemáticos pelo país

Entre os episódios destacados pelo levantamento está Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, conhecido como Léo Bode, apontado como liderança do Comando Vermelho no interior paulista, possuindo armas registradas em seu nome. Outro caso envolve Levi Adriani Felício, da cúpula do PCC preso no Paraguai em 2019, acusado de ser fornecedor de armas e drogas para facções brasileiras.

Em Minas Gerais, a Operação Ludibrio investigou um empresário suspeito de usar documentos falsos para obter registro de CAC e fornecer armas ao PCC. No Espírito Santo, investigações conectaram integrantes de facções catarinenses e traficantes à compra legal de armamento via registro fraudulento de CAC.

No Rio de Janeiro, membros da milícia Escritório do Crime com registro de CAC foram alvos de operações policiais. Em São Paulo, empresários como Eduardo Bazzana, presidente de clube de tiro, foram presos suspeitos de fornecer armas a facções criminosas, acusação negada por sua defesa.

Aspectos legais e fiscalização

Os CACs são categorias previstas no Estatuto do Desarmamento desde 2003, com alterações recentes na legislação que ampliaram, durante o governo Bolsonaro, e depois reduziram, sob a presidência Lula, os limites para compra e posse de armas e munições. Em 2025, a fiscalização do sistema passou do Exército para a Polícia Federal, que conta com colaboração das polícias civis estaduais em casos de crimes relacionados ao tráfico e comércio ilegal de armas.

De acordo com o consultor sênior do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, o número real de casos é provavelmente maior, já que o levantamento considera apenas ocorrências tornadas públicas. Ele observa que houve aumento da quantidade de armas e munições de uso restrito desviadas para o crime, sobretudo durante períodos de flexibilização das regras federais.

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