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Pesquisador revela 46 mortes por banzo em navio negreiro inspecionado no Rio

Obra mostra que inspeções visavam proteger a cidade de doenças, não o bem-estar dos africanos escravizados.

Capa do livro 'Corpos em trânsito', de João Carlos Nara Jr.
Capa do livro 'Corpos em trânsito', de João Carlos Nara Jr. — Foto: Divulgação

O historiador e arquiteto João Carlos Nara Jr. publicou o livro "Corpos em Trânsito: Visitas de Saúde em Navios Negreiros (1791–1830)", que revela a prática das fiscalizações médicas realizadas em navios negreiros que chegavam ao porto do Rio de Janeiro. A obra detalha documentos históricos que mostram que a finalidade dessas inspeções era proteger a cidade de doenças, sem preocupação com a saúde dos africanos escravizados transportados.

Igreja de Santa Rita
Igreja de Santa Rita — Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio

Segundo Nara Jr., que também é servidor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro benemérito do Instituto Pretos Novos, as visitas sanitárias eram realizadas por uma equipe composta por um vereador, um médico e um escrivão. O médico inspecionava as embarcações para identificar riscos de contágio para a cidade. Se necessário, os escravizados eram encaminhados para quarentena.

Pintura conhecida como 'Navio Negreiro', de Johann Moritz Rugendas, de 1830
Pintura conhecida como 'Navio Negreiro', de Johann Moritz Rugendas, de 1830 — Foto: Reprodução

Entre os registros analisados, há o caso de uma embarcação onde ocorreram 46 óbitos atribuídos ao "banzo" — termo de origem angolana que designa profunda melancolia e sofrimento severo entre os escravizados. Pesquisadores lembram, contudo, que essa classificação pode ter ocultado casos de desnutrição e outras doenças relacionadas às condições precárias da viagem.

Os documentos da inspeção mostram ainda que, em 1791, quatro viagens tiveram uma taxa média de mortalidade de 8,8%, com navios transportando entre 400 e 576 pessoas entre tripulantes e escravizados. Em algumas situações, navios que apresentavam casos de varíola foram liberados para desembarque, evidenciando as limitações do conhecimento médico da época.

A conexão histórica e o resgate da memória

Além das vistorias em navios, o livro aprofunda o estudo sobre o Cemitério de Pretos Novos, localizado no Valongo, utilizado para enterrar africanos recém-chegados que morriam antes de serem registrados como propriedade de alguém. Este cemitério ficava na Freguesia de Santa Rita, que teve que assumir o sepultamento dessas pessoas que não tinham domicílio definido.

Nara Jr. destaca relatos sobre as condições cruéis da travessia, como o de uma recém-nascida que morreu logo após o parto dentro de um armazém no Valongo, após uma gestação forçada durante a viagem. A mãe foi mencionada apenas como referência, revelando a falta de humanidade diante do sofrimento dessas pessoas.

Para o historiador, resgatar esses documentos proporciona visibilidade aos indivíduos cujas vidas foram reduzidas a números em registros burocráticos, evidenciando a dinâmica do mercado escravagista e a rede de inspeções que marcavam a chegada dos navios à Baía de Guanabara entre os séculos 18 e 19.

Tags: Rio de JaneiroSaúde Públicaescravidãohistória do Brasilnavios negreiros

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