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Mercados

Clientes com múltiplos cartões priorizam quitação de faturas de fintechs, revela estudo do Banco Central

Pesquisa do Banco Central mostra que brasileiros com mais de um cartão preferem pagar antes as faturas de fintechs, reduzindo inadimplência neste segmento.

21/10/2026 às 12h13

São Paulo – Com o avanço das fintechs e a digitalização dos serviços financeiros, tornou-se comum que brasileiros tenham cartões de crédito emitidos por diversas instituições. Um estudo recente publicado pelo Banco Central, conduzido pelos pesquisadores Theo Martins (FGV-EAESP), Bernardo Ricca (Insper) e Arthur Taburet (Duke University), analisou o comportamento dos consumidores em relação ao pagamento de faturas quando enfrentam dificuldades financeiras.

De acordo com a pesquisa, os consumidores que possuem mais de um cartão de crédito tendem a priorizar o pagamento das faturas emitidas por fintechs. Os cartões de bancos digitais apresentaram uma inadimplência 15 pontos percentuais menor em média quando comparados aos cartões emitidos por bancos tradicionais. Por exemplo, se a chance de calote é 45% em bancos tradicionais, esse índice cai para 30% nas fintechs.

A análise explorou o cenário de clientes com múltiplos cartões e verificou que apenas 16% dos inadimplentes deixam de pagar todas as faturas. Além da preferência por fintechs, os clientes também priorizam o pagamento junto a bancos onde mantêm outros empréstimos ativos, como financiamentos imobiliários, que reduzem a chance de inadimplência em 10 pontos percentuais, e financiamentos de veículos, com redução de 5 pontos percentuais.

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Outro fator que influencia a decisão de pagamento é o limite de crédito disponível. Clientes tendem a privilegiar instituições financeiras nas quais possuem maior limite, aumentando em 5 pontos percentuais a probabilidade de quitar as dívidas nessas instituições.

Possíveis razões para escolha das fintechs

Bernardo Ricca, professor do Insper e um dos autores do estudo, aponta duas hipóteses para a preferência pelo pagamento das faturas das fintechs: seja pelo maior valor atribuído ao relacionamento com os bancos digitais, já que uma parcela da população abriu sua primeira conta nessas instituições, ou pela superioridade dos métodos de cobrança dessas fintechs.

Esse comportamento selecionado acontece em um contexto de forte crescimento das fintechs no Brasil. Dados do Banco Central indicam que, no segundo trimestre de 2026, havia 243 milhões de cartões de crédito ativos, um aumento de 92% em relação ao período pré-pandemia. O número de cartões supera o total da população, evidenciando que há muitos consumidores com vários cartões.

Dados de 2022 mostram que 46% dos usuários ativos possuem mais de um cartão: 25% possuem cartões em duas instituições financeiras, 11% em três, enquanto uma parcela menor tem entre quatro e seis ou mais cartões.

O limite de crédito disponível cresce conforme o número de cartões que o consumidor possui, indicando maior exposição ao risco de inadimplência. Por exemplo, quem tem um cartão tem um limite médio de R$ 7,1 mil, já quem possui cinco cartões em diferentes instituições conta com um limite médio de R$ 23,3 mil.

Implicações para bancos e clientes

Esse fenômeno do “calote seletivo” estimula a competição entre as instituições pela fidelização dos clientes, conhecidas como estratégias para conquistar a “principalidade” do consumidor. Isso pode elevar a chance de evitar inadimplência e, consequentemente, reduzir perdas nas instituições financeiras.

Segundo Bernardo Ricca, essa busca pela principalidade pode beneficiar os clientes, que passam a usufruir de serviços mais competitivos. Por outro lado, pode também incentivar o aumento do limite de crédito concedido, favorecendo um possível incremento do endividamento dos consumidores.

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