PF identifica R$ 80 milhões em emendas para Belford Roxo na gestão de Márcio Canella
Polícia Federal localiza R$ 80 milhões em emendas indicadas para Belford Roxo durante gestão de Márcio Canella, preso na Operação Unha e Carne.
A Polícia Federal (PF) identificou a destinação de R$ 80 milhões em emendas de comissão indicadas pela liderança do União Brasil na Câmara dos Deputados para o município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, durante a gestão do ex-prefeito Márcio Canella. A informação está presente na representação encaminhada pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF), que fundamentou a decisão do ministro Alexandre de Moraes de ordenar a prisão preventiva do ex-prefeito no âmbito da Operação Unha e Carne.
Segundo os investigadores, esses recursos foram registrados como “emendas de liderança”, sem identificar nominalmente os parlamentares responsáveis pelas indicações. No celular de Canella, foi encontrada uma anotação com a expressão “Emendas / 20 Pedro 20 Mota”, que a PF associa aos deputados federais Pedro Lucas Fernandes e Gabriel Mota, ambos do União Brasil. Apesar desse indício, não há confirmação formal de que esses deputados tenham indicado as referidas emendas.
A representação da PF não detalha quais obras, serviços ou projetos teriam sido financiados com essas emendas nem o valor efetivamente repassado à prefeitura de Belford Roxo. Também não há comprovação nos documentos fornecidos pela PF de que os valores tenham sido desviados ou utilizados para sustentar o grupo criminoso investigado, nem há vínculo direto entre essas verbas e movimentações financeiras suspeitas relacionadas a uma rede de postos de combustíveis, objeto das investigações.
A investigação da PF aponta que Canella atuava como articulador político e elo entre integrantes da organização criminosa ligada ao Comando Vermelho, que utilizava empresas do setor de combustíveis para movimentar e ocultar recursos ilícitos. Foram encontrados registros indicando repasses periódicos a Canella com valores em dinheiro supostamente relacionados às atividades dessa rede de postos, identificados com codinomes e quantias específicas, mas não ligados diretamente às emendas parlamentares.
Além disso, a PF destacou o vínculo societário de Canella com outra pessoa em uma empresa associação ao Posto de Gasolina São Sebastião, que teria movimentado más de R$ 10 milhões em depósitos em espécie, conforme informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A investigação mapeou movimentações financeiras superiores a R$ 7,6 bilhões envolvendo dezenas de pessoas físicas e jurídicas entre 2020 e 2026, relacionados ao setor de combustíveis, mas esse valor diz respeito ao conjunto da investigação e não ao montante das emendas.
Em parecer transmitido ao STF, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se posicionou favoravelmente às medidas cautelares pedidas pela PF, incluindo a prisão preventiva de Canella e de outros investigados, como o ex-secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim, que também foi preso na operação. Até o momento, os parlamentares apontados na anotação não se manifestaram sobre as suspeitas.
Em nota, por meio de sua advogada, Márcio Canella declarou que “confia em Deus, na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido”. Os processos seguem em investigação e ainda não representam condenação judicial.
Na oitava fase da Operação Unha e Carne, autoridades prenderam seis pessoas e apreenderam diversos bens e documentos que podem contribuir para o aprofundamento das apurações sobre o suposto esquema criminoso relacionado à lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.