Impasse entre países adia atualização científica do IPCC antes de negociações climáticas cruciais
Reunião do IPCC é suspensa sem definição de cronograma para novo relatório sobre mudanças climáticas, ameaçando negociações climáticas de 2028.
Uma reunião importante dos 195 países membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) foi suspensa sem que se chegasse a um consenso sobre o calendário para publicar a próxima revisão das descobertas científicas mais recentes sobre o aquecimento global, informou o próprio IPCC em comunicado divulgado nesta sexta-feira.
O impasse no cronograma, que já dura quase três anos, ameaça levar os países a enfrentarem a próxima fase das decisões climáticas sem acordo sobre pontos cruciais, como o grau de reversibilidade de parte do aquecimento global. A reunião, ocorrida esta semana em Adis Abeba, capital da Etiópia, ultrapassou o tempo previsto e precisou ser suspensa, já que muitas delegações de nações menos desenvolvidas e pequenos Estados insulares tiveram de deixar o evento.
Relevância do cronograma para as negociações climáticas
Definir as datas para a publicação do próximo relatório científico do IPCC era o ponto central da reunião, uma vez que esse documento servirá como base para os governos avaliarem o progresso em direção às metas do Acordo de Paris de 2015 durante as negociações climáticas da ONU agendadas para novembro de 2028, no chamado “Balanço Global”.
Até o momento, as discussões sobre o cronograma da revisão e o orçamento do IPCC permanecem sem resolução, e as deliberações serão retomadas assim que possível, segundo o órgão, que não forneceu mais detalhes.
Divisões entre países membros atrasam decisões
Uma coalizão de 30 países, que inclui nações europeias, latino-americanas e pequenos Estados insulares, manifestou preocupação com a possibilidade de os relatórios do IPCC não estarem prontos a tempo para as negociações climáticas de 2028, reforçando a pressão por ações imediatas.
Em contrapartida, países como Índia, Quênia, Arábia Saudita, Rússia e China solicitam mais tempo para a preparação dos relatórios, destacando a necessidade de assegurar que cientistas de países com menos recursos possam contribuir de forma significativa.
Tina Stege, enviada climática das Ilhas Marshall, criticou duramente a situação: “Estávamos aqui para trabalhar, mas vimos todas as propostas serem rejeitadas — sobre inclusão, sobre a relevância da ciência para nosso planejamento nacional, sobre a necessidade de evidências para orientar o próximo Balanço Global. O progresso foi bloqueado até o fim — uma manobra vergonhosa para ganhar tempo quando não há tempo a perder.”
Peso dos relatórios do IPCC no cenário global
Os relatórios do IPCC são elaborados por centenas de especialistas internacionais e aprovados por todos os Estados-membros, tornando-se referência essencial para o planejamento governamental das respostas às mudanças climáticas. Além disso, são frequentemente citados em decisões judiciais internacionais.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente tem reiterado a insuficiência dos esforços globais atuais para conter o aquecimento, destacando que reduções mais profundas nas emissões são cruciais para evitar desastres ligados ao clima.