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Metodologia do Projeto Uerê alfabetiza crianças traumatizadas e ganha nos EUA

Pedagogia criada no Complexo da Maré recebeu prêmio internacional de US$ 150 mil por método que supera traumas para ensinar a ler e escrever.

Yvonne Bezerra de Mello, fundadora e presidente do Projeto Uerê
Yvonne Bezerra de Mello, fundadora e presidente do Projeto Uerê — Foto: Divulgação

O Projeto Uerê, que apoia crianças e adolescentes do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, recebeu o David M. Rubenstein Prize, prêmio internacional de US$ 150 mil (cerca de R$ 745 mil, na cotação de 05/11) concedido pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. A iniciativa é reconhecida pela aplicação da Pedagogia Uerê-Mello, uma metodologia criada para alfabetizar crianças que enfrentam dificuldades causadas por traumas provocados pela violência constante.

Yvonne Bezerra de Mello recebe o David M. Rubenstein Prize
Yvonne Bezerra de Mello recebe o David M. Rubenstein Prize — Foto: Divulgação

A educadora Yvonne Bezerra de Mello, fundadora e presidente do projeto, desenvolveu o método após observar que a exposição contínua à violência causa danos no funcionamento do cérebro, especialmente na memória, dificultando o aprendizado. Ela explica que essas dificuldades não são falhas individuais das crianças, mas sim consequência de traumas que precisam ser tratados de forma sistemática.

Projeto Uerê recebeu da Library of Congress, em Washington, o David M. Rubenstein Prize, um dos mais importantes reconhecimentos internacionais na área da alfabetização.
Projeto Uerê recebeu da Library of Congress, em Washington, o David M. Rubenstein Prize, um dos mais importantes reconhecimentos internacionais na área da alfabetização. — Foto: Divulgação

Metodologia adaptada às limitações da atenção

Para lidar com essas limitações, as aulas no Uerê são organizadas em blocos curtos de 12 a 15 minutos, respeitando o tempo de atenção reduzido das crianças do ensino fundamental, que dificilmente passam de 15 minutos focadas. As atividades começam com estímulos que prendam o interesse, seguidas de trabalho em grupo e, por fim, exercícios de escrita. O ensino privilegia a oralidade e exercícios cognitivos ao longo das aulas.

Segundo Yvonne, cerca de 75% dos alunos começam o programa sem saber ler ou escrever, apresentando um atraso escolar médio de três anos. O Uerê costuma alfabetizar seus estudantes em média dentro de um ano, com baixa ou nenhuma evasão, apesar da lista de espera conter mais de 100 nomes.

Reconhecimento internacional e impacto ampliado

O prêmio foi anunciado pela Biblioteca do Congresso em 8 de setembro, Dia Internacional da Alfabetização, e o Uerê foi um dos 21 projetos premiados no Literacy Awards 2026. Recebeu o maior valor do programa, superior aos demais vencedores principais, como o Literacy Center of West Michigan e a Read Alliance, dos EUA, e o Nal’ibali Trust, da África do Sul.

O bibliotecário do Congresso em exercício, Robert R. Newlen, destacou a capacidade do projeto em elevar os níveis de alfabetização e adaptar o ensino às necessidades específicas de cada criança. Para Yvonne, o prêmio reconhece uma metodologia originada em suas experiências desde os anos 1970, quando alfabetizava filhos de refugiados em Paris e percebeu que crianças traumatizadas pela guerra tinham dificuldades similares no aprendizado.

Após trabalhar com meninos de rua no Brasil e fundar o Projeto Uerê na Maré em 1998, ela formalizou a pedagogia em 2000, baseada em estudos de neurociência e experiência prática. Até hoje, o projeto já atendeu mais de 3 mil crianças e capacitou cerca de 15 mil professores em várias cidades brasileiras e no exterior, incluindo países da Europa, África e Estados Unidos.

A pedagodia Uerê-Mello foi adotada como política pública na rede municipal do Rio entre 2008 e 2015 e ganhou reconhecimento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) como uma das melhores práticas mundiais para o ensino de crianças em situação de vulnerabilidade.

Tags: AlfabetizaçãoEducaçãoPedagogia Uerê-MelloProjeto Uerêviolência infantil

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