J.R.R. Tolkien comenta sobre o momento mais trágico em “O Senhor dos Anéis” e revela inspirações pessoais
Em entrevista inédita de 1968, Tolkien discute suas inspirações para "O Hobbit" e analisa a complexidade moral da obra, destacando o papel de Gollum.
Em 1968, o escritor britânico J.R.R. Tolkien concedeu uma rara entrevista à BBC, que teve apenas alguns trechos exibidos na época. O vídeo completo, recuperado em 2019, trouxe à tona declarações que revelam suas inspirações pessoais para a criação de O Hobbit e sua visão sobre as nuances morais presentes em O Senhor dos Anéis.
Tolkien relatou que grande parte das aventuras de Bilbo Bolseiro foi inspirada por uma experiência própria quando tinha 19 anos. Ele descreveu uma difícil caminhada pelas montanhas da Suíça em 1911, durante a qual viveram situações de risco e momentos marcantes, como pernoites em locais extraordinários e a aproximação da morte em algumas ocasiões. “Acho que é por isso que, realmente, a jornada [de Bilbo] é uma experiência pessoal verdadeira, naturalmente alterada. Não encontramos nenhum goblin”, comentou o escritor.
Além disso, Tolkien compartilhou a visão sobre a criação das línguas da Terra-média, explicando que seu interesse começou em Oxford, quando estudava finlandês e se encantou pela textura sonora do idioma. Essa paixão, segundo ele, influenciou diretamente a invenção das línguas presentes em seus livros.
O Momento Mais Trágico e a Complexidade Moral de Gollum
Entre as reflexões mais profundas de Tolkien está a análise do personagem Gollum, retratado como um exemplo de corrupção. Ele discutiu o episódio em que Gollum, ao lado de Frodo, demonstra a tentativa de regeneração ao retornar a seu antigo eu, Sméagol, porém é impedido pelo instinto protetor de Sam. “As pessoas costumam me perguntar o que mais me comove”, afirmou Tolkien, “Acho que o ponto mais trágico de toda a história é a terrível ironia de que o bem, muitas vezes, faz o mal.”
O autor explicou que, apesar da intenção benevolente de Sam ao afastar Gollum de Frodo, essa ação interrompe o processo de redenção do personagem, que volta a sua maldade. Essa dualidade reflete a complexidade moral que permeia suas obras, onde não há uma divisão simplista entre bem e mal.
Na entrevista, Tolkien ainda destacou que, “as linhas gerais são muito simples, mas é claro que, na realidade, não é assim. Você observa o mal no lado bom. Não são apenas os bons contra os maus, como se diz no linguajar atual.” Essa perspectiva destaca a profundidade da mitologia presente em sua obra, e o realismo de suas personagens e conflitos.
Essa entrevista recuperada traz não só aspectos pessoais do autor mas também um olhar aprofundado sobre a elaboração do universo ficcional de Tolkien, renovando o entendimento sobre suas criações literárias.
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