Famílias questionam mortes de pessoas em surto durante abordagens policiais em São Paulo
Mortes recentes de três pessoas em surto reacendem debate sobre uso da força pela Polícia Militar em São Paulo.
As recentes mortes de pessoas em surto psiquiátrico durante intervenções da Polícia Militar de São Paulo trouxeram novamente à tona o debate sobre a forma como as forças de segurança atuam em ocorrências que envolvem crises mentais. Familiares das vítimas criticam o uso desproporcional da força nos casos e defendem que os familiares precisavam de assistência médica e apoio, e não de resposta letal por parte da polícia.
Nos últimos dias, os casos de Gustavo Muniz de Santana, Camila Pereira da Silva e Antônio Nunes Batista ganharam destaque pela similaridade nas circunstâncias. Gustavo, de 20 anos, foi morto após policiais terem disparado 45 tiros em menos de cinco segundos ao serem acionados para atendimento de tentativa de suicídio. Apesar de não portar armas, ele segurava um celular no momento do disparo, que resultou em 27 tiros em seu corpo. Os policiais envolvidos foram afastados e podem responder por homicídio.
Já Antônio, com histórico de problemas psiquiátricos e uso de drogas, portava faca e barra de ferro quando foi abordado por cinco policiais. Inicialmente, foi usada arma de choque, porém, segundo boletim de ocorrência, não foi suficiente e ele acabou morto com 24 tiros. Parentes contestam a necessidade do uso letal da força.
No caso de Camila, que enfrentava problemas de saúde e estava armada com uma faca, a polícia foi acionada durante uma situação em que ela perseguia o ex-companheiro. Como não obedeceu ordens para parar, um policial disparou contra ela, atingindo o peito. O delegado responsável avaliou que houve uso desproporcional da força e determinou a prisão do policial, que posteriormente obteve liberdade provisória.
Especialistas em saúde mental ressaltam que ocorrências envolvendo pessoas em surto requerem abordagens diferenciadas, com participação de profissionais da saúde e assistência social para evitar desdobramentos fatais. A legislação determina que o uso da força policial seja proporcional à ameaça apresentada, privilegiando recursos menos agressivos como negociação, contenção física, spray de pimenta ou arma de choque, deixando o uso de arma de fogo como último recurso.
Em paralelo, a Brigada Militar do Rio Grande do Sul revisou seus protocolos após a morte de Eric Cristian da Silva Vargas em 2025, implementando atuações integradas da polícia com a saúde, o que zerou as fatalidades em casos similares no estado.
Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas informou que haverá revisão dos procedimentos e treinamento da Polícia Militar para evitar novos excessos, destacando que a corporação prioriza a preservação da vida e a abordagem humanizada.
Para as famílias, contudo, a maior perda é a ausência dos entes queridos que não retornaram para casa, enquanto aguardam mudanças concretas nas atuações policiais frente a crises psiquiátricas.