União Europeia reafirma apoio a Zelensky em meio a tensões com Trump e aproximação dos EUA à Rússia
Líderes da UE expressam solidariedade ao presidente ucraniano diante do acirramento das relações entre Kiev e Washington após flexibilização de sanções à Rússia.
A União Europeia reafirmou nesta sexta-feira (16) seu apoio ao presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, em um momento marcado pela intensificação de tensões entre Kiev e o governo do presidente americano Donald Trump. A preocupação da comunidade europeia também se estende à aproximação dos Estados Unidos às posições russas, o que tem gerado desconforto entre os aliados europeus.
As relações entre Estados Unidos e Ucrânia enfrentam dificuldades desde a semana anterior, quando Trump anunciou uma flexibilização das sanções contra a Rússia. Em troca, Moscou comprometeu-se a fornecer grandes quantidades de diesel para os mercados globais e americano. Zelensky classificou o acordo como “indigno” e manifestou que ele apenas encorajará a continuidade do conflito armado iniciado em fevereiro de 2022.
O episódio desagradou também diversos parceiros europeus de Kiev, que criticaram as medidas que têm objetivo de reduzir o custo dos combustíveis nos EUA, especialmente em um contexto de proximidade das eleições legislativas americanas, marcadas para 3 de novembro.
Além disso, as divergências entre Ucrânia e Estados Unidos se aprofundaram após Zelensky ordenar novamente ataques contra refinarias russas, desconsiderando as orientações do governo norte-americano.
Um ponto crítico da crise envolve a interrupção no funcionamento do sistema de satélites Starshield, fornecido pelos EUA, cuja instabilidade têm dificultado a capacidade das Forças Armadas ucranianas de responder aos ataques russos.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, ao receber Zelensky em Bruxelas para uma reunião de cúpula da União Europeia, declarou que “não é o momento de reduzir o apoio à Ucrânia nem de aliviar as sanções contra a Rússia”.
Zelensky expressou agradecimento pelo compromisso dos líderes europeus, que chamou de “verdadeiros líderes”, e ressaltou não observar sinais de que Moscou deseja pôr fim ao conflito.
O primeiro-ministro dos Países Baixos, Rob Jetten, afirmou que a situação na Ucrânia é “muito grave”, em razão dos ataques russos e do agravamento da relação com Washington, e enfatizou a necessidade de a Europa manifestar apoio incondicional ao país e avaliar medidas adicionais.
Outro lado dos Estados Unidos
Desde que Trump retornou ao poder em janeiro do ano anterior, Zelensky tem enfrentado dificuldades na negociação com o governo americano, que sinalizou redução do suporte financeiro a Kiev.
Recentemente, Trump classificou de “vergonha” a retomada dos ataques ucranianos contra refinarias russas e responsabilizou Kiev pelo aumento dos preços globais dos combustíveis. O presidente americano disse ainda que considera mais difícil lidar com Zelensky do que com Putin, em entrevista concedida ao canal Newsmax.
O Kremlin acusou a Ucrânia de obstruir os esforços dos EUA para promover negociações de paz ao retomar os ataques às instalações russas.
Na Ucrânia, a indignação cresceu diante das limitações impostas ao sistema Starshield, fundamental para as operações militares. A empresa SpaceX, responsável pelo sistema, afirmou que as decisões sobre uso e largura de banda são tomadas pelas Forças Armadas americanas e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos. Elon Musk, fundador da SpaceX, negou envolvimento em quaisquer interrupções.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, ressaltou a importância do Starlink — outro sistema de rede por satélite usado na Ucrânia — e alertou que a Europa não tem capacidade de substituir o sistema a curto prazo.
Desafios financeiros e defensivos
Os líderes da União Europeia têm como prioridade superar as divergências com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que planejam fortalecer as defesas aéreas da Ucrânia e buscar soluções para a delicada situação orçamentária do país.
Zelensky destacou a necessidade de preparo para o inverno, apontando que o desafio não é somente energético, mas também envolve defesa antiaérea e financiamento.
A UE mantém atualmente um programa de empréstimos que totaliza 90 bilhões de euros, destinado a cobrir as necessidades da Ucrânia até o fim de 2027. No entanto, o governo ucraniano já alertou que precisará de dezenas de bilhões de euros adicionais, em razão dos impactos econômicos dos ataques russos.
O debate sobre o aumento do suporte financeiro engloba ainda a possibilidade de usar cerca de 200 bilhões de euros em ativos congelados do Banco Central russo para financiar a Ucrânia. Entretanto, não há avanços políticos concretos, principalmente devido à oposição da Bélgica, onde a maior parte desses fundos está depositada.