Professores relatam desafios diários e falta de apoio nas escolas brasileiras
Docentes da educação básica compartilham experiências sobre violência, sobrecarga e desvalorização no Dia dos Professores.
Em 15 de outubro, no Dia dos Professores, educadores da rede pública brasileira abriram relatos sobre suas condições de trabalho e ausência de apoio nas escolas. Nas postagens feitas em resposta a reportagens do G1 sobre educação, professores destacaram a sobrecarga, desrespeito, violência e a falta de suporte que enfrentam cotidianamente.
Janaína Jascone, professora de inglês de uma escola pública de Santo André, São Paulo, conta que lida com turmas superlotadas e múltiplas aulas em sequência, o que impacta negativamente sua saúde mental. “Na primeira aula, entro em um universo. Dali a 50 minutos, vou entrar em outro… Vão ser seis em uma manhã só. Quem cuida da nossa saúde mental?”, questiona a docente de 43 anos.
Em Roraima, Hudson Araújo, que leciona história na rede estadual, afirma que a lista de responsabilidades dos professores cresce enquanto a pressão aumenta. Ele destaca a dificuldade de lidar com alunos com necessidades especiais sem o suporte necessário e aponta que a indisciplina e a falta de autoridade docente tornam o trabalho mais desgastante.
Leviston Silveira, professor de ciências em uma escola sem laboratório, cita que a carência de infraestrutura prejudica o interesse dos alunos e aumenta o adoecimento dos professores, desmotivando também jovens que poderiam seguir a carreira docente.
Maria Luzia, docente da educação infantil pública de Brasília, compartilha que, devido à desconfiança dos pais e à vigilância sobre seu trabalho, acabou se afastando da profissão após o nascimento do filho. Ela vivenciou acusações de doutrinação por simples atividades educativas e alerta para a fragilidade da comunicação entre escola e famílias.
A pesquisa “O Estado do Professor Brasileiro”, realizada pelo Instituto Casagrande, reforça que os desafios enfrentados pelos docentes envolvem violência, indisciplina, falta de recursos e desvalorização. Esse cenário se agrava com a percepção do baixo reconhecimento salarial, conforme dados da OCDE apresentados no anuário Education at a Glance 2026, que indicam que apenas 22,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental estão satisfeitos com seu salário.
Principais reivindicações dos professores
Os educadores ouvidos pela reportagem pedem:
- Valorização e equiparação salarial compatível com outras carreiras que exigem ensino superior e pós-graduação;
- Redução do número de alunos por turma para permitir atenção individualizada;
- Autonomia pedagógica, com flexibilização do uso obrigatório de plataformas digitais;
- Fim da aprovação compulsória para manter a autoridade do professor;
- Participação ativa e responsabilidade das famílias no acompanhamento escolar;
- Implementação de redes efetivas de suporte à saúde mental dos docentes;
- Garantia de direitos e estabilidade para professores contratados temporariamente;
- Melhoria da infraestrutura básica das escolas, como climatização, mobiliário adequado e laboratórios.
Maria Luzia lembra que iniciou a carreira inspirada por suas professoras e demonstra amor pela profissão, mas expressa dúvidas sobre continuar diante das condições enfrentadas: “Eu amo minha profissão, mas não sou professora por amor. Ninguém cuida da gente”, desabafa.
Os relatos evidenciam a contradição entre a importância social da educação e as condições reais enfrentadas pelos profissionais que atuam na base do sistema educacional brasileiro.